24 anos sem um namorado: breves notas sobre o amor no século XXI

Eu tinha 2 anos e meio quando meus pais se divorciaram. Até algum tempo atrás eu acreditava que esse fato não tinha tido nenhum efeito traumático em mim. “Talvez os anos de terapia tenham me salvado do sofrimento” eu pensava. A verdade é que os efeitos dessa abrupta mudança na minha pouca vida, combinados com as inúmeras experiências e “aprendizados” dos demais anos que vieram, só começaram a fazer sentido há alguns meses.

São efeitos sutis. Crenças limitantes que você mal percebe, mas que se estabelecem como padrões de pensamento e, consequentemente, de hábito. No meu caso, era o medo de me entregar. De amar.

E antes que você pense que essa é uma carta aberta culpando o divórcio dos meus pais pelo fato de eu ter 24 anos e nunca ter tido um namorado eu já adianto que tudo o que eu vou descrever aqui não se limita a mim. É uma epidemia. É decorrente de anos de manipulação e concepções erradas do que de fato quer dizer amar. Do que significa ter um relacionamento.

Então a culpa não é do divórcio dos meus pais. É dos meios de comunicação. É do patriarcado. É da desconexão entre a razão e o emocional, do cogito ergo sum de Descartes. Da religião e das falhas traduções que tentamos dar aos sentimentos. O divórcio foi apenas um dos grandes acontecimentos que, na minha vida, introduziram uma ideia absurda do que significava amar alguém.

amor.

Vejam bem. Somos ensinados sobre o amor como somos ensinados acerca de tudo na vida: como um jogo de poder. É assim que compreendemos praticamente tudo aquilo que ocorre em sociedade.Temos um doentio complexo de constante conflito, de que há uma intransponível divisão: “eles contra nós” ou “eles contra mim”

Assim, compreendemos o amor da mesma forma. Como uma competição, uma constante batalha de egos. E contaminamos essa ideia corrompida com nossa obsessão por controle e posse. É uma fórmula perfeita para o desastre. E é por isso que estamos onde estamos: em uma sociedade que é cada vez mais aberta sobre quem escolhe amar, mas que não faz a mínima ideia do que isso significa.

Daí passamos por pessoas como fazemos com os produtos que consumimos. Há uma data de validade, um desejo talvez inicialmente oculto de possuir já o próximo e melhor modelo. E, principalmente, há o medo.

E ninguém fala de verdade sobre esse medo. Mesmo sendo ele tão constante e praticamente inescapável. O medo da humilhação. De amar e não ser correspondido. De mandar uma mensagem e não receber uma resposta. De desejar alguém mais do que esse alguém deseja você. De acabar sendo aquele personagem patético que chora e sofre e parece nunca se recuperar de um coração partido.

Ora,  medo de amarora.

Temos tão medo e tanta certeza do fracasso que preferimos nos comprometer com relacionamentos vazios e com data de validade do que nos entregarmos de verdade. E digo isso por experiência própria.

Eu sempre enganei a todos e a mim mesma dizendo que eu nunca tive um relacionamento simplesmente porque não tinha conhecido alguém de quem gostasse o suficiente para abrir mão da minha liberdade.

Quanta. Bobagem.

A verdade é que eu nunca sequer me permiti amar alguém. Muito menos demonstrar. Amor nada tem a ver com uma suposta supressão de liberdade. Isso era o que eu dizia. O que meu ego dizia.

E, pensando bem, é disso que se tratam os relacionamentos das comédias românticas e novelas. Dos egos.

O amor não correspondido só soa como uma tragédia porque somos condicionados a compreender o amor como um jogo de poder. Quem demonstra mais, ou quem ama mais, está necessariamente em uma posição desprevilegiada.

E isso também porque nos vendem essa ideia absurda de que o amor só é lindo quando correspondido. Só é lindo quando vai de acordo com uma série de regras e formatos que predefinimos como aceitáveis.

Mas medo de amar eu descobri um segredo

Mas o que eu descobri após algum tempo buscando compreender um pouco mais essa linda bagunça que acontece dentro de mim é que o sofrimento só é inevitável quando nos apegamos àquilo que é ilusório e transitório. Aí entram o ego, o tesão, a ambição de possuir e controlar o outro e tudo que te cerca.

Então, o amor só dói quando ele é aquilo que nos vendem diariamente nos comerciais, novelas, filmes e séries. Um inacabável afago no ego. E quando ele deixa de ser se torna uma tragédia.

Na minha experiência pessoal, isso se traduziu como uma inexorável carga de tensão em cada um dos meus novos potenciais relacionamentos. O medo de parecer ou de fato me apegar demais. De estar sendo feita de boba. De ser traída. Basicamente: de não ser correspondida.

E quando eu era magoada me sentia uma idiota por ter me permitido sentir. Me permitido ser frágil e vulnerável. Ter sido vista demonstrando emoção. Aquela que supostamente somos obrigados a suprimir com a gloriosa racionalidade.

então medo de amar

E agora, depois de muito tempo analisando e prestando atenção em tudo aquilo que mora dentro de mim e como tenho me comportado ao longo da vida, tenho certeza que esse meu bloqueio emocional é apenas outra face do meu já conhecido medo de não ser suficiente, de falhar, de sofrer. Da necessidade de corresponder às expectativas da sociedade e de alimentar meu ego e não a minha essência.

E eu sei que esse é um medo universal. E você que está lendo esse texto provavelmente também tem medo de ser humilhado, de fracassar e sofrer.

Mas, embora tenhamos aprendido que isso faz parte de ser humano, a verdade é que isso é parte de ser um ser egóico. De compreender o mundo a partir de uma perspectiva dualista e que divide e comparmentaliza tudo aquilo que encontra.

Claro que não receber uma mensagem de volta, terminar com seu namorado ou sofrer um divórcio não é delicioso como um comercial de margarina. Mas também não precisa ser esse vortéx inacabável de sofrimento. A faísca que dá vazão a um padrão de autosabotagem e medo. E, com certeza, não diz nada a respeito do seu valor como ser vivente.

break

Compreender que não ser correspondida não significa ser humilhada ou ter fracassado me liberou de uma forma revolucionária. Hoje me sinto pronta e aberta pra me doar por inteiro. Para ser completamente vulnerável e explorar todas as vertentes do meu “eu-emocional” que de forma nenhuma está separado do resto de mim.

Hoje entendo que todos os pensamentos que me limitam e me impediram de amar e demonstrar afeto por tanto tempo nada mais são do que ilusões criadas pela minha mente, pelo meu ego que tanto teme ser menosprezado.

E, obviamente, isso também resulta de uma compreensão da importância de amar a mim mesma. De conseguir, de fato, abraçar tudo aquilo que sou, sem desculpas. De entender que sou completa mesmo quando sozinha. Pois é isso que me faz ter a certeza de que não me amarei menos, nem serei menos merecedora de amor, por não ter sido correspondida.

Principalmente, compreender que não há nada de humilhante em me abrir. Em ser emocional. Em me expressar e me escancarar. Esses são atos de coragem. Atos que transcendem o ego, pois é o meu ego que precisa ser correspondido. Enquanto a minha alma, minha essência, ama quando ama, dança quando dança, se expressa quando se expressa. Incondicionalmente.

e tudo isso

Então, o verdadeiro abrir de olhos que tive nessas últimas semanas e que precisei compartilhar, é o seguinte:

O amor não é um jogo de poder, não é a glorificação do ego. O amor é a simples entrega. É a coragem de se doar, de ser vulnerável e de não esperar absolutamente nada em troca. Exatamente por compreender que o amor por si só basta. Mesmo quando não correspondido.

Amar nunca é em vão. Nunca te fará alguém mais fraco, nunca te humilhará ou te fará ser alguém menor. Esses medos são fruto de um estúpido paradigma que nos diz diariamente que precisamos ser uma fortaleza, máquinas sem emoção, e que os sentimentos são completamente patéticos quando não correspondidos.

Não ser correspondida pode soar como uma tragédia, mas é tão belo como amar alguém que te ama de volta. As coisas são como são e somos nós que as condicionamos e catalogamos a nosso bel-prazer. Amar é um ato belo, verdadeiro, a pura expressão da sua essência. Por isso, a beleza e a validade do amor não se condiciona a qualquer resultado. O amor é sempre lindo. O amor é sempre válido.

A dor é só a expressão do nosso falível ego humano. É o ego que dói. É a ilusão de que precisamos possuir o outro, que precisamos ser correspondidos para que nossos sentimentos sejam válidos e respeitáveis. É o medo de parecermos estúpidos, frágeis, vulneráveis. Sofremos porque somos obcecados pelo nosso próprio ego.

Mas o amor jamais deve ser condicionado, nem mesmo à reciprocidade. O amor deve fluir livre. Pois quem ama qualquer pessoa ama a si mesmo, e quem tem medo de amar só ama seu próprio ego.

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2 Comentários

  1. Ieda, vi um texto de não lembro quem, dizendo que as mulheres de hoje em dia são criadas para serem independentes, profissionais, dividirem ombro a ombro as tarefas com os homens, tanto em casa como no trabalho enfim, na vida, mas o oposto não acontece. Os homens continuam sendo formado em moldes machistas. Isso criaria uma dicotomia de propósito mesmo. Acho que faz algum sentido, considerando que os homens ainda esperam uma mulher a moda antiga e ela já não existe mais. Acho que sua geração tem vivido grandes desafios, mas ainda bem que vc é uma pessoa questionadora e que não estaciona na comodidade de esperar a vida te levar. Um beijo e parabéns

    1. Acho que vai bem mais além do que apenas criar mulheres que correspondam aos moldes do paradigma patriarcal… o paradigma como um todo tem que ser repensado. Não adianta a gente querer criar mulheres menos emotivas, mais racionais só porque fomos condicionados a exaltar a razão em detrimento dos sentimentos. Temos que repensar toda essa ideia de supressão do nosso lado emotivo que começou lá em Descartes e que foi tão aprofundado na modernidade. O buraco é bem fundo, mas não é impossível de superar 🙂

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