A coragem de fazer (e ser) diferente

Aristóteles uma vez ensinou que nossa consciência chega ao mundo como tábula rasa, ou uma folha em branco, sobre a qual passamos a escrever tudo aquilo que mais tarde assimilaremos como parte de nós.

Essa metáfora nos coloca frente a frente com uma questão muito importante: quais partes de nós são natas e quais são construídas ao longo da nossa vida? E, ainda, será que podemos mudar atributos que acreditamos ser inatos, ou somos condicionadas a sermos como sempre fomos?

Elis Regina já cantava que, ainda que tentemos fazer diferente, acabamos vivendo como os nossos pais. E essa é uma conclusão tão assustadora quanto verdadeira.

É engraçado que, num mundo de possibilidades infinitas, de culturas, sabores, profissões e modos de vida distintos, acabamos por repetir os comportamentos dos nossos pais, familiares e amigos. Assim, crescemos acreditando que todas as fases que passamos em nossas vidas são as fases naturais e quando fazemos nossas escolhas acreditamos estar considerando todas as possibilidades, quando na verdade consideramos somente uma pequena parcela, que é aquela que conseguimos enxergar.

Então, não surpreende ninguém que eu, como filha de advogados, tenha escolhido cursar Direito. Mas isso é, sim, surpreendente: se considerarmos que existem no mundo 7 bilhões de trajetórias de vida diferentes, é chocante que acabemos escolhendo repetir uma experiência que conhecemos. A própria matemática comprovaria que a probabilidade disso acontecer espontaneamente é quase nula.

E isso vale até para os aspectos mais cotidianos, como o fato de acreditarmos que temos que ir para escola, que temos que nos casar e ter filhos, que precisamos constituir uma família e que devemos tomar café pela manhã.

Acreditamos que só existe uma forma de viver e vamos nos moldando para que nos encaixemos perfeitamente nesta “fôrma” pré-pronta. Vamos aperfeiçoando as características que são vistas com bons olhos pela sociedade e suprimindo os anseios que não coadunam com o que é considerado “normal”. E assim a vida passa, num ciclo infinito e repetitivo de padrões de comportamento.

Mas se somos tábula rasa, ou se há alguma parte de nós que depende somente do nosso poder criativo e imaginário, o rotineiro é realmente um desperdício de potencialidade.Isso não significa que a vida cotidiana e rotineira não tenha “valor”, mas sim que ela, infelizmente, não é resultado de uma escolha consciente, mas sim de uma repetição inconsciente de comportamentos.

Claro que enxergar além dessa “ilusão” que nos condiciona é muito mais difícil do que parece ser, e nos obriga a questionar tudo, inclusive aquilo que acreditamos conhecer tão bem: nossa própria identidade.

Então, é óbvio que a escolha de fazer e ser diferente é muito assustadora. Implica abdicar do conforto da certeza, do acalento do conhecido. O infinito é também vazio e muitas vezes pode parecer esmagador.

Só que é a partir do vazio que podemos encarar todas as possibilidades de frente. Apenas quando compreendemos que as expectativas da sociedade, da nossa família e até mesmo as nossas, são mais ilusórias que os sonhos que a sociedade nos proíbe de sonhar é que podemos encontrar aquilo que há de mais cru e puro em nós mesmos: aquilo que somos e queremos de verdade.

Conhecer a si mesma é bem assustador, pois podemos encontrar características que suprimimos e que são vistas com maus olhos pela sociedade. Além disso, a falta de parâmetros sobre os quais nos alicerçar deixa um espaço criativo tão gigante que pode parecer nos consumir. Por isso, a “normalidade” dos dogmas que nos limitam assustam menos que a loucura da liberdade.

Dostoiévski, em Irmãos Karamazov, retrata muito bem essa relação dúbia do homem com a liberdade:

[…] Não há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consciência, mas também não há nada mais terrível. Em lugar de pacificar a consciência humana, de uma vez por todas, mediante sólidos princípios, Tu lhe ofereceste o que há de mais estranho, de mais enigmático, de mais indeterminado, tudo o que ultrapassava as forças humanas: a liberdade. Agiste, pois, como se não amasses os homens… Em vez de Te apoderares da liberdade humana, Tu a multiplicaste, e assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, para toda a eternidade…

(…)

É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas… A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos vôos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam

No entanto, apesar do tormento do primeiro mergulho em si mesmo, e da realização de todas as infinitas possibilidades da mente e do espírito humano, o vazio da liberdade acrescenta em nossas vidas uma leveza inédita que retira todo o peso das culpas que vamos acumulando ao longo do tempo. Não há problema algum em ser o que você é, nem sentir os impulsos que você sente: não há regras que ditam como sua vida deve ser vivida, é a sua própria mente que te engana dizendo o contrário.

E todos os elementos que condicionam a sua felicidade, na verdade estão apenas reforçando o sentimento de incompletude e ansiedade que nos toma quando há pressa em se adequar, em adentrar ao imaginário social da plenitude: dinheiro, família e estabilidade.

Só que, como também nos ensina Dostoiévski, o homem só é infeliz porque não sabe que é feliz.

Isso significa que, todos esses “marcos” a caminho da felicidade (um bom diploma, um bom trabalho, um bom casamento, filhos, uma boa aposentadoria, uma robusta herança e um legado significativo), na verdade não condicionam a nossa realização pessoal, e não trabalham em nosso favor, mas sim em favor da manutenção do status quo.

E quando nos despimos dessa necessidade de ser e obter tudo aquilo que nos dizem que é necessário para a felicidade, descobrimos que já somos, de fato, felizes.

Claro que essa é uma discussão filosófica que só tem espaço quando os mínimos existenciais estão presentes, porque não há sequer espaço para tal discussão quando falta o básico. Quem sente fome ou dorme ao relento não pode se dar ao luxo de filosofar.

Infelizmente, as coisas ainda são como elas são, e há ainda a necessidade de pelo menos alguma adequação, pois precisamos comer e precisamos ter um teto sobre a nossa cabeça. No entanto, o importante é saber que, para além disso, todo o resto é apenas enfeite e não condição para qualquer senso de conquista ou de felicidade.

Quando compreendemos isso, quando entendemos que não há qualquer tipo de “corrida ao topo”, e que nada que acrescentemos exteriormente suprirá a angústia que a sociedade nos impõe por sermos imperfeitos, a convivência humana é colorida por novos tons, e a paciência toma o espaço da ansiedade, a empatia ocupa o lugar da inveja, e a prepotência se torna humildade.

Convido você a se perguntar hoje: quem você seria se não houvesse regras? quem é você por debaixo de todo esse peso que você carrega?

A liberdade custa caro, é verdade, mas esse é um custo que vale a pena, e o primeiro passo tem que ser de dentro pra fora. Começa quando você se trata melhor, quando você compreende que você já é feliz e que são as culpas que você repassa o dia inteiro na sua cabeça que estão tampando seus olhos.

You may also like

1 comentário

  1. Muito bom o texto Ieda, parabéns! A parte em que você diz “não há regras que ditam como sua vida deve ser vivida” me fez lembrar de um trecho do livro Tornar-se Pessoa de Carl Rogers (inclusive recomendo a leitura): “Nas minhas relações com as pessoas descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como se eu fosse alguma coisa que eu não sou.”
    Não sei se você já conhece, mas dê uma procurada sobre a Psicologia Positiva, ela apresenta uma visão muito boa sobre a busca da felicidade por meio das virtudes humanas.
    E ainda deixo uma frase para reflexão: “O que você seria se não pudesse ter ou fazer?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *