Yoga: os caminhos que me levaram ao tapete

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Para mim, o tapete é salvação. O tapete é reencontro, é templo, é terapia. O yoga não só salvou minha vida, como me apresentou um universo que coloriu minha vida de uma forma inesperada. Hoje, o yoga tornou-se tão necessário quanto respirar. É, afinal, a prática que me ensinou a encontrar o prana: o sopro da vida.

Foram 22 anos vivendo no escuro, até encontrar a luz que iluminou a verdade. A verdade que acalentou e aqueceu meu coração.

E como toda história de amor, meu romance com o yoga começou da forma mais inesperada possível. Quando amor nem fazia parte do meu vocabulário, quando eu estava tão oca que meu interior apenas ecoava mais e mais da minha própria dor.

O prelúdio

Como eu já expus nesse post, minha vida foi marcada por duas crises depressivas. Mas a que eu quero tratar aqui surgiu aos 22, quando eu estava prestes a me formar em Direito e a minha vida parecia escapar das minhas mãos.

Em um mundo que lucra com pessoas odiando a si próprias, era de se esperar que a minha relação comigo mesma fosse de ódio. Eu me maltratava mais do que qualquer outra pessoa a minha volta.

Me sentia uma impostora, fingia ser boa em tantas coisas, mas me sentia pequena, sozinha, incompreendida. Meu corpo era um obstáculo, era um saco de pancadas, era uma casa para o meu sofrimento.

E quando se tornou difícil demais, eu estava pronta pra desistir de tudo. Ir dormir e não acordar mais. Parar de sentir. Parar de doer.

Eu tinha ido a uma aula de “hot yoga” em San Diego, quando estava morando lá. E apesar de não ter nenhum aspecto espiritual, lembrava de como eu tinha ficado 1 hora focada em não cair com minha cara no chão e não tinha pensado em mais nada.

Então, no desespero da minha crise, e após assistir o documentário “Quem somos nós“, decidi me entregar ao yoga, à espiritualidade e todas as demais “baboseiras” que minha mente intelectual tinha aprendido a ridicularizar.

Meu primeiro encontro com o tapete

Encontrei uma aula de yoga na minha academia e fui.

Eu estava nervosa. O espelho gigantesco que cobria duas paredes inteiras refletia minha dor. Meus olhos fundos, a ausência de cor, de luz. Eu odiava meu reflexo. E ele estava ali, olhando de volta.

O professor nos instruiu a sentar e fechar os olhos. Respirar. Era isso que faríamos nos próximos minutos.

O ar preenchia o meu pulmão, e eu sentia. Engraçado, eu fazia isso inconscientemente o dia inteiro. Mas ali eu sentia. O ar preenchia meu corpo. E ia embora.

De repente, eu já estava mais presente. Eu estava mais ali.

Então começaram os movimentos. As poses em sânscrito. Eu não entendia grande parte do que o professor falava, mas dei meu melhor pra copiar o que ele estava fazendo.

Caí. Falhei. E por várias vezes fiquei me perguntando o que eu estava fazendo ali. Eu imaginava algo tranquilo. Algo parado. Algo fácil.

Mas ali estava eu, me equilibrando sobre os dedos do meu pé. Focando o olhar na ponta das minhas mãos. Experimentando meu corpo.

Depois de 30 minutos que pareceram voar, estávamos no chão. Na pose, tínhamos que dobrar nosso corpo sobre nossas pernas, tentando colocar o peito sob as coxas, tentando alcançar a ponta dos pés.

De repente, ali, naquela pose supostamente desconfortável, encontrei comigo mesma pela primeira vez.

Quem habita aqui?

É engraçado. Hoje eu tenho plena consciência que não sou meu corpo. Mas foi através do corpo que tracei um caminho de conexão comigo mesma.

Ali, dobrada sobre mim mesma, eu podia me sentir. Tudo doía, tudo cintilava com uma certa presença. Eu sentia a ponta dos meus pés. Eu sentia minhas coxas, minhas costas. Eu sentia as gotas de suor que tomavam conta de mim.

Afinal, eu estava ali. Eu estava em cada pedaço de mim. Eu estava ali no dedinho do meu pé e eu estava aqui na minha cabeça. Eu não era, afinal, um cérebro. Eu era muitas coisas ao mesmo tempo.

Então, ali, naquela posição, chorei baixinho. Era essa, afinal, a presença que habitava em mim. Não a pessoa que eu tinha construído pro mundo. Não a pessoa que tinha aprendido as regras de convivência, de sobrevivência, de conveniência. Era apenas uma presença.

Eu apenas era. Não havia adjetivo ou substantivo completando a frase. Eu era. Eu sou. E foi essa a realização que me liberou.

Engraçado que é na Savasana (a posição final em que você deita ali de olhos fechados e medida) que as realizações supostamente chegam a você. Mas para mim, foi ali na Paschimottanasana que eu tive minha primeira experiência com o “eu sou” que habita em mim.

O yoga é um caminho ao Samadhi

A minha primeira experiência sob o tapete me trouxe vislumbre de mim. Como se eu tivesse apenas passado no final de um corredor, e eu visse a forma, enxergasse seus atributos, mas ainda não podia decifrá-los.

Foi no retorno diário que comecei a andar pelo corredor e me aproximar, mais e mais, da figura que me aguardava no final.

Hoje tenho um relacionamento com o eu sou. E estou mais e mais unida com ela. Às vezes volto a ser o ego, a pessoa que tinha decidido ir à aula de yoga. Mas escolho diariamente voltar à minha essência. Aquela que descobri no tapete.

Fazem 3 anos desde a primeira vez e, por vezes, ainda me sinto como quem acabou de começar. Às vezes ainda choro baixinho no meio da aula. Às vezes dou gargalhadas e tenho vontade de dançar, gritar, anunciar a beleza do que somos. A beleza do que podemos encontrar diariamente.

O yoga é caminho. O yoga é jornada. Yoga, em sânscrito, significa unir. Unir o espírito do homem com o espírito de deus. O espírito que é tudo. O espírito que habita em todas as coisas, inclusive em você.

E quando há a união, as tribulações dessa realidade se esvaem. Não há dor, não há sofrimento, há somente presença.

O Samadhi é a conexão mais alta com o espírito divino. São muitos anos para alcançar o Samadhi, e alguns jamais o alcançarão. Mas a missão do iogue é continuar na busca. E é na busca que a vida vai se desenrolando e se demonstrando.

Uma nova perspectiva

O yoga me salvou. O yoga me traz sopro de vida diariamente. Mas eu ainda não alcancei o Samadhi, longe disso.

A vida ainda me traz momentos de sofrimento. Ainda sou humana. Ainda vivo em um mundo humano, material. Mas o que mudou é a minha perspectiva acerca da minha própria existência.

Hoje eu sei que sou um ser metafísico habitando em uma realidade material. E que o que eu buscava incessantemente externamente está aqui, dentro de mim.

O yoga não é religião. Não é uma cura imediata e milagrosa. É uma prática cujo objetivo é conectar a sua alma com algo maior que você mesmo. Não importa se você acredita em um deus ou vários. Se você acredita em uma “força superior” ou em fadas e gnomos.

O yoga te reconecta com o presente, com o agora, para que você compreenda que é no agora que você habita. Embora a sua cabeça tente te convencer que você vive no passado ou no futuro, sentindo-se empurrado pelo que aconteceu e ansioso pelo que ainda sequer existe.

No agora a vida é mais bonita. No agora você não está correndo, você não está fugindo, você não está fingindo, ou tentando. O agora te permite simplesmente ser, e contemplar.

Você é o universo se experimentando

Quando me sinto atropelada pelas expectativas do futuro, pelos medos decorrentes das experiências passadas, ou pela loucura do mundo, eu sei que encontro no tapete a verdade. Todo o resto é ilusão. O eu sou é a verdade.

O eu sou é o sol pela manhã. É o canto dos pássaros. O eu sou se manifesta no andar das formigas, que sabem que existem como parte de algo maior, e confiam: a natureza sabe. Talvez as formigas não tenham crises existenciais porque sabem. Elas confiam que seu propósito é o propósito do universo e sem elas a realidade não seria a mesma.

E é isso que o yoga ensina. E é isso que eu quero te dizer hoje: Sem você o mundo não seria o mesmo. Sua existência é essencial. Você faz parte do propósito do universo.

Sem você, a sua perspectiva do universo não existiria, porque ela é única. E sem a sua perspectiva, tudo seria diferente.

Então, regozije nas possibilidades da experiência de estar vivo. Você é o universo todo, experimentando a si próprio pela perspectiva única que só você pode oferecer.

E quando você compreende isso, você começa a amar a si próprio, porque você sente. Você sente que é tudo. E amar tudo é consequência, porque você ama quem você é.

Namastê

Em Sânscrito, Namastê pode ser traduzido como uma reverência. Minha alma reverencia a sua. Mas pode ser traduzida de várias outras formas. É o que dizemos quando terminamos a prática. É uma forma de agradecimento, de reconhecer que sua alma escolhe se identificar com a alma divina que habita no outro e em você, e não com o ego.

Por isso, meu convite a você é que você enxergue sua alma como eu enxergo. Você é espírito divino. Você é um ser belo, eterno, que ultrapassa os contornos da matéria. E a minha alma reverencia, reconhece, e ama a sua.

Experimente encontrar-se com quem você realmente é. Tudo que você precisa é seu corpo e a decisão de começar.

Nos encontramos no tapete.

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