Meu Diário de Viagem: Hong Kong

Hong Kong: 17 de abril

No aeroporto de Los Angeles, indo para Hong Kong.

Vou ser sincera, já que afinal toda a proposta de ter um “diário” de viagem só faz sentido se eu for relatar tudo que aconteceu da forma mais honesta possível. Nenhuma lágrima caiu dos meus olhos quando me despedi da minha família em Campo Grande, e quando chorei no aeroporto do Rio de Janeiro foi muito mais por efeito do vinho branco e por felicidade que, de fato, por nervosismo, medo da saudade ou qualquer um desses sentimentos.

A verdade é que eu já estava acostumada com despedidas, a ir embora e ir pra longe. E ir pro Rio de Janeiro ou até mesmo pra Califórnia nem se caracterizava como “ir pra longe” porque são lugares que eu aprendi a amar e que são muito mais minha casa que Campo Grande.

Então eu me senti meio desconfortável e estranha quando chegou o dia de ir pro Rio de Janeiro e iniciar a viagem, porque eu simplesmente não sentia nada. E minhas irmãs choravam muito, minha mãe, todo mundo muito emocionado, e eu me perguntando o por que, afinal eu já nem morava mais com eles há 6 anos, e eles também estavam acostumados a não me verem todos os dias e a me amarem à distância.

O sentimento continuou o mesmo embarcando pra Los Angeles. Eu tinha a impressão de estar fazendo algo bem rotineiro, tipo acordar e escovar os dentes. E o mais estranho é que meses antes eu estava passando noites acordada com o nervosismo.

Mas foi quando eu embarquei no LAX que tudo veio à tona. Na verdade, no caminho eu já estava meio que surtando. Meu amigo Mike inclusive me deu um chá de camomila e melatonina, porque esse era o nível do meu nervosismo.

Eu me perguntei se talvez meu sonho não era morar em Los Angeles e não viajar o mundo. Porque eu já estava muito feliz só de estar ali, só de ter vivido aqueles últimos dias, e me senti tão confortável, tão em casa, que sair dali me parecia mais loucura do que sair do Brasil.

Afinal de contas, o que eu estava indo fazer na Ásia? Eu já sabia que eu amava Los Angeles. E todos os motivos que eu já sabia de cor, que eu vinha repetindo pra todo mundo, desapareceram. Eu queria perder o voo e desistir de tudo. De verdade.

Hong Kong nem era uma cidade que eu queria conhecer, e eu só acabei comprando a passagem porque custava menos milhas do que uma passagem direto para Tailândia.

Esperando no portão de embarque eu tive a certeza de que tinha cometido o maior erro da minha vida. Só tinham asiáticos, a maioria chineses, e eu me sentia a pessoa mais deslocada do mundo, sem entender porque eu queria ir pro outro lado do mundo pra me sentir dessa mesma forma.

E o mais engraçado é que no Brasil eu estava muito certa que era isso que eu queria, por uma extensa lista de razões, já que era algo que eu tinha imaginado fazer desde pequena. Então por que eu queria tanto correr, pegar um Uber e voltar pra casa dos meus amigos em LA?

Comecei a chorar muito, tudo o que eu não chorei em Campo Grande ou no Rio, e comecei a pensar na decisão de deixar minha zona de conforto, de me expor a riscos desnecessários, nessa minha teimosia e esse meu jeito diferente de ser, de gostar de ser sozinha, e me perguntei o por que dessa necessidade de “fugir” sempre que eu começava a gostar de algum casulo ou zona de conforto. Ia ser bem mais fácil se fosse inerente à minha personalidade uma dificuldade qualquer de ficar longe, um apego qualquer a qualquer coisa, e não esse desapego de tudo e todos.

O voo estava lotado e 90% dos passageiros eram chineses, seriam 16 horas sentada com muito tempo pra pensar e me arrepender do meu sonho ridículo de viajar sozinha, sem ninguém pra conversar já que só dava pra ouvir mandarim no avião inteiro. Tomei logo duas melatoninas e apaguei antes mesmo do avião decolar, sem nem saber quem ia sentar do meu lado.

a caminho de Hong Kong
Tirei essa foto emocionada por ter passado pelo estreito de Bering e por estar sobrevoando a Rússia (achava que ia demorar muito até eu conseguir visitar)

Acordei no meio do voo, achando que já estaríamos, no mínimo, na metade do caminho. Mas só tinham passado 4 horas.

Eu estava desesperada para ir ao banheiro, só que os dois chineses do meu lado estavam dormindo e a menina sentada no meio estava na posição mais bizarra possível, com a cabeça encostada na cadeira da frente, dificultando meu plano de pular os dois pra conseguir fazer xixi.

Não tive opção senão acordar os dois, porque eu ia literalmente fazer xixi na calça. Ambos me olharam com bastante raiva, e conversaram algo em mandarim enquanto se levantavam como zumbis.

Graças a meu saudável hábito de beber água constantemente, aliada ao meu nervosismo e a dificuldade de dormir durante o resto do voo, tive que ir ao banheiro mais três vezes.

Em cada nova vez os chineses me olhavam com mais ódio. Cheguei a acreditar que a chinesa do meu lado ia cuspir na minha cara a qualquer momento. Isso com certeza não aumentou minha vontade de conhecer a China.

Coloquei uma comédia romântica na tv do avião, mas não consegui me concentrar. No fundo da minha cabeça passavam todos os pensamentos do mundo.

a caminho de Hong Kong
Vista do avião, voando da luz para a escuridão… sensação indescritível

 

18 de Abril

Primeiro dia em Hong Kong

Cheguei em Hong Kong às 9 horas da manhã, literal e figurativamente, no futuro (12 horas à frente do Brasil).

Ouvir o piloto dizer welcome to Hong Kong foi o suficiente pra me lembrar tudo aquilo que faz parte de mim e que me compeliu a fazer essa “loucura”. Eu estava na Ásia!! Do outro lado do mundo. Sozinha. Livre. Tudo era possível.

O aeroporto em si já era impressionante, cheio de gente de todas as cores, todos os estilos e de todas origens. Fiquei levemente perdida, mesmo com todas as placas em inglês, e o jet lag era tanto, e misturado com tantas emoções, que estava bem difícil raciocinar. Então cometi o primeiro erro idiota da viagem: peguei um Uber ao invés de um ônibus.

Hong Kong é bem difícil de entender. São ilhas, áreas e bairros diferentes, e eu não tava entendendo nada. Mesmo que os letreiros tivessem as traduções em inglês, as partes em mandarim eram suficientes para me intimidarem e quase me fazerem esquecer que eu sabia falar inglês. Minha cabeça estava doendo, meus olhos também, e eu sabia que o hostel era bem longe do aeroporto.

Então fui de Uber.

eu fotografando tudo em Hong Kong, até o motorista
O simples fato de o motorista estar dirigindo do lado do passageiro já me impressionou, porque eu sou impressionável nesse nível.

O caminho até o hostel foi quase que inteiramente por avenidas gigantes, cercadas por construções e pelo mar. E eu continuava sem entender nada do que estava acontecendo.

Quando o motorista estava chegando perto do hostel percebi que Hong Kong não era nada do que eu esperava. Tudo parecia bem antigo e tradicional. Os letreiros eram todos em chinês, os prédios pareciam antigos e nada parecia familiar.

Eu já estava morrendo de medo porque eu nunca tinha me hospedado em um hostel e eu não sabia direito se tinha escolhido bem, nem sabia o que esperar. Eu comecei a rezar por um banheiro limpinho, porque era só isso que eu precisava. E uma cama.

De fora, parecia que eu tinha errado feio, porque o hostel era em cima de um restaurante chinês bem duvidoso, daqueles que demandam um ótimo sistema digestivo e pouco critério. A entrada era ainda menos promissora, literalmente um corredorzinho bem sujo e estreito, com uma plaquinha pequena do hostel, apontando pro segundo andar. E lá fui eu com minha mochila e todo o meu nervosismo.

nem parece a entrada pro melhor hostel de Hong Kong
Vista do corredorzinho

Felizmente, depois de abrir a portinha de vidro que dava pro hostel, meu nervosismo desapareceu. Tudo era exatamente igual às fotos do site, limpinho, estiloso, e com os atendentes mais fofos da vida.

melhor hostel em Hong Kong
Sala do hostel

A recepcionista me levou pro meu quarto e eu fiquei aliviada. O quarto era muito limpo, muito novo e muito além das minhas expectativas.

Apesar do jet lag estar me matando, eu sabia que não podia passar o dia dormindo, porque isso só ia piorar a situação e dificultar a adaptação ao novo horário. Então tomei um banho e fui descobrir Hong Kong.

Só então eu lembrei que não tinha comido nada desde o jantar em Los Angeles (quase 23 horas antes). Meu cerébro não estava lesado só por causa do jet lag, como pela fome e pelo sono, o que dificultou ainda mais a minha primeira aventura asiática.

Eu não consegui atravessar a rua e andei em círculos umas cinco vezes até desistir e pedir outro uber. Era uma questão de sobrevivência.

O motorista era um chinês idoso muito fofo que ficou muito chocado com o fato de eu estar viajando sozinha. Ele disse que tinha uma filha da minha idade e me deu o telefone dele caso eu precisasse de ajuda ou para alguma emergência.

Chegando no centro eu reconheci a Hong Kong que eu imaginava, prédios futurísticos, pessoas muito bem vestidas e estilosas lotando todas as ruas, andando de um lado pro outro com pressa, igual todas as metrópoles.

centro de Hong Kong
Centro de Hong Kong

O Uber me deixou em uma escadinha toda decorada com coisinhas asiáticas que dava pra um labirinto de ruas bem complicadas de entender de primeira, mesmo com o google maps.

Hong Kong é cheia de lugares fofos
Escadinha fofinha

Dei umas 4 voltas antes de finalmente encontrar o restaurante vegano que tinha visto online. Então quando cheguei eu estava com a maior fome do mundo e pedi tudo que eles tinham, o que também foi um erro que me levou a gastar mais do que eu precisava.

Mas considerando que eu não tinha passado mais do que 20 horas sem comer, eu acho que merecia.

melhor restaurante vegano de Hong Kong
Parece pequena, mas essa salada tinha quase 1kg

Apesar de estar muito cansada e ter feito muita coisa no meu “dia” que tinha começado em Los Angeles e não tinha terminado ainda, os moradores de Hong Kong ainda estavam na hora do almoço. Então as ruas estavam lotadas de pessoas indo e voltando de restaurantes, todas com roupas formais ou de academia, aproveitando um pouco do clima ensolarado, mas não tão quente daquele dia.

Pra minha surpresa, a maioria das pessoas não tinha traços orientais, e quase todas falavam inglês enquanto andavam pelas ruas. Era como estar em Londres, ou em Nova York, ou em uma mistura delas, mas com alguns detalhes que me lembravam que eu estava, de fato, na Ásia.

Na frente do restaurante um saxofonista tocou Garota de Ipanema e me deu mais um motivo pra me emocionar (de novo). Resolvi que precisava aproveitar o máximo do meu tempo em HK e pedi um café pra ver se eu acordava, e pesquisei alguma atração turística ali por perto mesmo.

Bossa nova em Hong Kong...
Essa foto parece uma poesia… ou talvez seja a forma como ela me faz sentir, como se estivesse lá de novo

Por sorte um dos principais pontos turísticos era bem perto de onde eu estava. Paguei minha conta e fui andando meio zonza pela cidade, um pouco mais alerta por causa do café. Passei por vários jardins que ficavam no topo de prédios, e comecei a me sentir quase que em casa. Pela primeira vez, não me perdi, e cheguei na porta do The Peak.

O The Peak é um dos pontos mais altos de Hong Kong, de onde você tem uma vista de toda a cidade, a subida era em um trenzinho com aspecto de antigo, do estilo bondinho de Santa Teresa, mas bem mais rápido.

Desde o Rio de Janeiro, ou até mesmo antes disso, no meu intercâmbio, eu já tinha aprendido que o melhor jeito de me sentir confortável sozinha em qualquer lugar (restaurante, atração turística, etc.) era ouvir minhas músicas preferidas. Então apesar de eu ser a única menina sozinha na fila, no trem e no The Peak inteiro, eu estava bem de boa ouvindo minha música e curtindo o momento, observando as árvores passarem pela janela do trem, notando as famílias, os amigos e os casais a minha volta.

Eu sempre amei observar pessoas, imaginar suas trajetórias, pensar como seria viver uma vida completamente distinta da minha, em que eu potencialmente teria um ponto de vista totalmente diferente. Eu nem preciso entender o que elas estão conversando, nem preciso observar elas por muito tempo, o simples fato de reconhecer a existência de outras pessoas, e da complexidade que a vida de cada uma delas carrega, já é o suficiente pra me deixar feliz.

No topo de Hong Kong...
Apaixonada pela arquitetura chinesa tradicional

Então eu adorei o passeio muito mais pela oportunidade de observar as pessoas do que, de fato, pela vista. Mesmo a vista sendo maravilhosa.

No topo de Hong Kong...
Vista do topo

Eu caminhei por toda a extensão do The Peak, pra fazer valer meu ingresso, e quando eu resolvi ir embora eu já estava muito, mas muito mais cansada do que quando eu subi no trenzinho.

Ainda eram três e meia da tarde, mas eu não estava mais conseguindo nem manter uma linha de raciocínio por mais de um minuto, e estava começando a ficar bem rabugenta, com sono e querendo muito uma cama.

Passei numa lojinha de comidas saudáveis que eu tinha visto no caminho pro restaurante e comprei um saco enorme de pipoca e um outro saco de uma sobremesa vegana muito gostosa com gosto de torta de limão. Fui pra casa de trem e quase perdi a estação porque dormi no caminho, mas consegui acordar a tempo de descer no lugar certo, pegar o ônibus e chegar no hostel às 6 da tarde só mesmo pra deitar e dormir.

Acordei às 22h com várias meninas no quarto fazendo barulho, mas o sono ainda era tanto que eu nem liguei e voltei a dormir.

Às 3h da manhã eu acordei com toda a energia e fome do mundo, muito provavelmente por conta do jet lag. Agradeci eu mesma por ter comprado a pipoca e a sobremesa, e assisti masterchef na minha pequena cápsula comendo meus lanchinhos.

O problema é que comer pipoca faz muito barulho e comer pipoca de dentro de um saco plástico faz mais barulho ainda. Então eu comi um milho por vez, com toda a delicadeza do mundo, e foram necessárias algumas horas pra eu terminar o saco inteiro. Fiz isso até as 6 da manhã quando eu finalmente decidi que já dava pra sair da cama e viver.

19 de Abril

Segundo dia em Hong Kong

Tentei fazer o mínimo de barulho possível, pra não acordar o resto das meninas, mas foi difícil considerando que o banheiro era literalmente dentro do quarto. Saí com o cabelo molhado porque usar o secador com certeza seria algo bem escroto.

Eu estava morrendo de fome, considerando que eu só tinha comido uma comida decente em dois dias.

Eu precisava de um café da manhã de respeito e o hostel só tinha torrada com geléia. Saí pelo bairro procurando algum restaurante com um brunch ou algo do tipo.

Mal sabia eu que o café raiz de Hong Kong é bem diferente do ocidental, e todos os restaurantes no bairro eram bem raiz e não tinham nenhuma opção vegana, nem perto disso. Era uma mistura de dim sums de carne de porco com uns croissants e outros pães doces, encontrei até pão de queijo, mas não encontrei um pão com abacate, ou um simples bowl de frutas.

sigo chocada até hoje
Pão de queijo de Hong Kong ou “Pontikege”

Decidi ir pra cidade, já zonza de fome, e encontrar algo por lá mesmo. Fui de ônibus dessa vez, já me acostumando com o transporte público, que em Hong Kong significa um metrô de primeira linha, limpo, organizado, ônibus de dois andares com ar condicionado torando e uma ou outra van ou mini ônibus de aparência duvidável.

Eu já estava completamente apaixonada pelo centro de Hong Kong e comecei a me concentrar mais ainda nos caminhos, pra me familiarizar ainda mais. As pessoas eram lindas, de todas as etnias, e muito bem vestidas, o que sinceramente me deixou um pouco chateada de ter só um mochilão de 60 litros que não incluía nenhuma roupa remotamente estilosa. Mas eu tinha decidido me desapegar não tinha? Então isso significava começar a me sentir bem vestindo o que eu tinha, afinal era a única opção.

A espera por comida valeu muito a pena, porque encontrei um lugar com um smoothie maravilhoso. Como já tinha andado bastante pelo centro, resolvi ir visitar o Big Buddha, um monumento que eu tinha visto online e que parecia muito interessante. O melhor era que dava pra chegar lá de metrô/trem, bem rapidamente.

Chegando lá fiquei muito surpresa porque bem na porta da estação de metrô do monumento tinha um outlet, algo que, na minha humilde e pouquíssima compreensão do budismo, não parecia ser algo muito correto.

Entrei no outlet só pra usar o banheiro, mas aproveitei pra olhar os preços e fiquei chocada. Os tênis e roupas de academia eram muito baratos. Mas engoli a vontade de gastar e fui pro bondinho que me levaria ao Big Buddha.

Na fila vi muitas famílias, casais, e grupos de turistas, o que mexeu um pouco comigo. Mas essa era uma experiência que eu queria fazer sozinha, de verdade, então coloquei meu fone de ouvido de novo e fiquei na fila muito grata por estar ali.

Subi em um bondinho com outros dois casais, em um dos trajetos mais lindos que eu já fiz na minha vida. Depois de aproveitar uma vista panorâmica de Hong Kong é possível avistar o Big Buddha, em cima de um morro ao longe. A imagem é emocionante.

Um contraste da natureza com o centro de Hong Kong
Buddha no meio da natureza, no topo da montanha…

Chegando lá, mesmo com o mar de turistas, me emocionei muito. Uma música calma tocava e por todos os cantos tinham dizeres em mandarim (traduzidos para o inglês) com palavras de reafirmação, amor, carinho, força.

Lugar preferido em Hong Kong

Algumas vaquinhas andavam livres pelo jardim que dava em uma escada gigantesca até os pés do Grande Buda. Pessoas subiam ajoelhadas, algumas muito emocionadas, enquanto outros turistas menos sensíveis tentavam tirar uma foto perfeita com os paus de selfie.

Lugar preferido em Hong Kong

A presença de tantas pessoas estragou um pouco toda a experiência, principalmente porque a maioria delas fazia muito barulho. Mas consegui tirar um tempo para sentar e apreciar aquele momento.

nem acredito que meditei em Hong Kong

Depois de um tempo, decidi explorar o resto da montanha e fugir da multidão. Encontrei um caminhozinho de árvores na lateral da estátua e segui a trilha para ver aonde dava.

Pra minha surpresa, o caminho dava para um conjunto de tábuas de pedras, no meio da floresta, chamado Heart Sutra. Um lugar bem mais vazio, com umas 3 pessoas além de mim, e com uma energia incrível. Descobri depois que o caminhozinho que eu tinha feito era chamado “Wisdom Path” ou Caminho da Sabedoria.

Lugar preferido em Hong Kong
Heart Sutra, “tábulas” de concreto no meio da floresta contendo uma oração budista

Sentei no alto de um pedra atrás das tábuas de concreto e meditei. Agradeci por estar vivendo aquela experiência, algo que eu sabia que levaria para o resto da vida.

Quando reabri meus olhos, quase caí de cima da pedra. Lá debaixo dois meninos estavam me olhando, sabe-se lá a quanto tempo, e um deles estava tirando fotos de mim.

O fotógrafo percebeu que eu estava olhando e deu um sorriso e falou com um inglês cheio de sotaque que iria me mandar as fotos depois, era só eu passar o meu número.

Mesmo parecendo só uma brincadeira, me senti invadida. Aquele era meu momento de contemplação, de meditação, e receber uma cantada barata ali parecia só uma lembrança de que o mundo ainda tinha muito o que evoluir.

Só que não parou por aí. Mesmo eu fechando a cara, eles não saíram de lá, e começaram a conversar em uma língua que eu não compreendia. Eu estava praticamente sozinha ali com eles, já que as outras pessoas já estavam de volta na trilha.

Comecei a pensar formas de escapar, lugares para onde eu pudesse correr, ou até uma pedra que eu pudesse tacar na cabeça deles caso eles me atacassem.

Fiquei um tempão nessa angústia, até que eles saíram de baixo da “minha” pedra e voltaram para a trilha. Eu ainda esperei uns 20 minutos para ter certeza que não esbarraria com eles no caminho de volta.

Mesmo assim, quando eu já estava de volta na área principal da montanha, reencontrei os dois. Eles pediram novamente o meu número, mesmo eu falando que preferia não passar, e falaram que me levariam até o ônibus.

Graças a Buddha, eu não tinha ido de ônibus, mas de bondinho. Então disse isso a eles, coloquei de novo meu fone de ouvido e fui andando em direção à fila pra descer. Eles não vieram atrás de mim e eu pude, finalmente respirar aliviada.

Essa experiência me fez lembrar que eu estava, de fato, sozinha. Só eu mesma poderia me proteger e isso demandaria uma dose extra de cuidado. Pelo menos descendo a montanha eu me sentia protegida.

19 de Abril

Mais tarde, já no hostel

Apesar da experiência chata no final da minha visita no Big Buddha, não me deixei intimidar. Decidi que queria sair à noite e me aventurar por Hong Kong.

Tinha pesquisado alguns lugares para visitar ali perto do hostel e descobri o Ladies Market. Me arrumei toda, coloquei a única roupa “arrumadinha” do meu mochilão e fui pegar o ônibus para o centro de Kowloon.

preparada pra noite de Hong Kong
Arrumadinha no banheiro do hostel, achando que ia noite ia bombar

Chegando no mercado de rua, percebi que eu não devia ter gastado tanto tempo me arrumando. Era uma espécie de 25 de março, só que em chinês.

Eram barraquinhas que não acabavam nunca mais, vozes altas pechinchando, oferecendo produtos ou só conversando. A rua estava cheia de turistas e, de vez em quando, eu conseguia escutar até um português abrasileirado.

As barracas ficavam literalmente no meio da rua, enquanto que dentro dos prédios ficavam lanchonetes, restaurantes ou depósitos. O cheiro era muito intenso. Frangos mortos e depenados pendurados na vitrine, ovos podres e pretos por dentro, aquários em que você poderia escolher o próprio peixe… Fiquei feliz por ser vegana.

Muuuuuita coragem
Tem que ter muita coragem…

Não comprei nada e passei horas olhando. Tantas horas que acabei esquecendo que ainda tinha que pesquisar um lugar pra comer.

Só que achar comida vegana em HK é complicado. E, geralmente, demanda uma preparação prévia.

Andei por várias ruas, entrei num shopping enorme, e nada de encontrar um lugar pra comer. Já eram quase 23h e eu estava exausta, voltei pro hostel me sentindo derrotada e com muita fome.

Quando desci no ponto de ônibus na frente do hostel, notei um cara saindo da escadinha tenebrosa que dava para a recepção. Ele tinha cara de viajante, ou de turista pelo menos. Resolvi seguir ele na esperança de acabar num bom restaurante.

Infelizmente, ele entrou numa 7 eleven.

Eu fiquei mais desapontada ainda de ter andando duas quadras pra acabar numa 7 eleven. Eu já estava quase comprando um miojo quando notei, do outro lado da rua, uma espécie de dinner chinês. Parecia limpinho e tinha um cardápio com fotos, então decidi dar uma chance.

Ir pra Hong Kong e não comer dumplings é tipo pecado
Franquia que funciona 24 horas por dia… se eu soubesse traduzir o nome colocava aqui.

Nenhum dos atendentes falava inglês, então foi muito dificil perguntar se tinha algo sem carne, peixe, frango, ovo ou leite. Por sorte, outro cliente falava inglês e me ajudou a fazer o pedido.

Pedi uma espécie de sopa com dumplings. O caldo era de vegetais, muito bem temperado, e o dumpling era feito com a mesma massa dos gyozas e recheado com legumes. Muito, mas muito gostoso. Valeu a pena a peregrinação.

só em Hong Kong pra eu comer uma sopa com dumpling...

Voltei pro hostel muito feliz e fui dormir com grandes esperanças para o próximo dia.

20 de Abril

Terceiro e último dia em Hong Kong. 

Consegui dormir bem e durante uma noite completa pela primeira vez.

Acordei animada e resolvi planejar meu dia antes de sair de casa. Como era meu último dia em Hong Kong, eu queria aproveitar para fazer o que eu mais amava fazer: andar sem destino. Mas um andar sem destino planejado, para não deixar de conhecer lugares legais.

Pesquisei alguns templos que ficavam perto da parte central de Hong Kong e decidi que iria voltar ao centro de Kowloon pra tirar uma foto legal com os letreiros acesos à noite.

luzes de Kowloon em Hong Kong
As ruas em Kowloon ficam assim: iluminadas pelos letreiros

Tomei um café, um banho e fui para o centro da cidade de ônibus. Já estava me sentindo confortável andando sozinha por Hong Kong, e estava triste por já ter que ir embora.

Tinha pesquisado uma rede de restaurantes/lojinhas saudáveis que vendiam hamburgeres veganos. Ainda eram 11 da manhã, mas eu sabia que queria um hamburger.

A lojinha ficava dentro da estação de metrô central e tinha tudo que eu sonhava encontrar: queijos veganos, kombuchas, leites de castanhas… Passei uns 30 minutos olhando tudo, mas não comprei nada. Ser mochileira requer muito auto controle.

Green Common, espalhado por Hong Kong inteira
Green Common: lojinha/restaurante vegano com várias unidades em HK

Pedi o famoso “Beyond Burger”, um hamburger vegano que imita a carne bovina. Pra minha surpresa, não só a consistência como o gosto da carne eram exatamente idênticos à carne de verdade. O gosto era bem defumado, que nem de churrasco, e a “carne” parecia até estar mal passada, com aquele tom avermelhado dentro dela.

Bizarro o tanto que parece carne de verdade…

Depois de devidamente alimentada, fui andar pelas ruas do centro de Hong Kong, apreciando o contraste entre os prédios com aspecto ocidental e algumas lojas e construções orientais. As ruas são limpas, e os carros são em sua maioria muito chiques. Um dos ubers que eu peguei era um Tesla. É bizarro.

Além disso, Hong Kong ainda tem muitas artes de rua maravilhosas. Várias paredes têm grafites lindos, e eu dei a sorte de passar por uma Faculdade de Arte todinha decorada por grafites.

Escadaria de uma escola de artes no meio de Hong Kong
Escadaria de uma escola de artes no meio de Hong Kong

Cheguei na Hollywood Street e quase não avistei o templo Man Mo, que fica quase que camuflado por entre os prédios da cidade. Eu estava lendo as explicações sobre o templo quando ouvi palavras em português. Era um grupo de mulheres brasileiras de meia idade que estavam viajando juntas pela Ásia.

Elas amaram ouvir a minha história e se ofereceram para tirar fotos de mim lá no templo. Elas ainda me passaram seus contatos, para caso eu precisasse de algo em Hong Kong. Umas fofas.

Fiquei um tempo conversando com elas e depois seguimos nossos caminhos.

O tempo passa muito rápido quando você está viajando. Depois do templo Man Mo eu andei um pouco mais pelo centro e já estava quase na hora do pôr do sol. Resolvi ir pra Kowloon e aproveitar pra ver o lugar com outros olhos, durante o dia.

Templo Man Mo no meio de Hong Kong
Templo Man Mo

Foi andando em Kowloon que encontrei o Girls Tattoo HK, um estúdio de tatuagem comandando por tatuadoras mulheres maravilhosas. Depois de dar uma olhada no instagram delas senti muita vontade de tatuar lá. Foi o que eu fiz.

 

Girls Tattoo Hong Kong
Girls Tattoo em Hong Kong, um lugar lindo comandado por garotas <3

Já fazia algum tempo que eu queria fazer mais uma tatuagem. Eu já sabia até o que queria escrever.

A tatuadora me mostrou diversas caligrafias diferentes, mas nenhuma delas estava me agradando. Então resolvi tatuar tabula rasa escrito na minha própria caligrafia. Ela fez um trabalho excelente, e eu sou apaixonada por essa tatuagem que, além de ser linda, tem um significado enorme para mim (muito pelo que discuto nesse post), e vai sempre me lembrar de Hong Kong e todas as emoções que passei por lá.

Terceira tatuagem da vida em Hong Kong
Resultado final (fica na perna esquerda, atrás do joelho) DOEU MUITO

Quando saí do estúdio já estava de noite, e as luzes de Kowloon estavam um espetáculo. Eu já estava cansada de tanto andar, mas mesmo assim ainda dei várias voltas pelo bairro, passei de novo pelo Ladies Market, tomei coragem pra pedir pra alguns estranhos tirarem fotos de mim, e já estava desesperada pra dormir. No outro dia meu voo pra Singapura saía às 9 da manhã, e eu precisava sair bem cedo pra conseguir chegar no aeroporto às 8h.

Kowloon em Hong Kong
Luzes de Kowloon

Fui dormir muito feliz com toda a experiência, apesar de estar um pouco triste por ter sido tão breve. Meu coração estava ansioso pela Tailândia e por tudo que ainda me esperava no futuro.


Oii, gostou do meu relato sobre Hong Kong? Quer visitar também? Fiz um post inteirinho com todas as dicas de acomodação, transporte e atrações, é só clicar nesse link aqui.

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