Filipinas: paraíso para quem? – A realidade das mulheres filipinas

Dentre os países que visitei, o que mais me chocou foi, com certeza, Filipinas. Não apenas me senti insegura em inúmeros momentos, como também pude notar um altíssimo numero de prostitutas (em sua maioria com aparência de menores de idade), e um quase desespero de mulheres e meninas para conseguir um marido ou namorado estrangeiro que as tirasse da miséria que marca muitas das ilhas. No hostel em Coron conheci um grupo de jovens filipinas que me ajudaram a entender melhor a realidade das mulheres no país que hoje é comandado por Rodrigo Duterte, um misógino de carteirinha.

Desde que se tornou presidente, Duterte tem cometido inúmeras atrocidades, como ordenar soldados a atirarem nas vaginas das rebeldes, brincar sobre estuprar a Miss Universo, e comparar o fato de ter uma segunda esposa com manter um estepe no porta-malas do carro. E os efeitos das palavras do presidente são visíveis no dia-a-dia do país: a exploração e o abuso sexual de mulheres e meninas está praticamente normalizado.

Essa normalização de discursos misóginos e patriarcais resulta em cenas deploráveis que, infelizmente, pude presenciar em primeira mão. Nas ruas, mesas de bar e dentro das boates de Palawan meninas com aparência de crianças (muitas delas pareciam não terem completado 15 anos) sentam no colo de estrangeiros, agem como se estivessem bêbadas ou drogadas e se oferecem a todos que passam.

Numa dessas ocasiões, dei de cara com uma menina que parecia ter 12 anos sentada no colo de um turista bem mais velho, com as pernas levantadas para demonstrar sua flexibilidade, enquanto não apenas o homem que a segurava, como todos os demais em volta, riam e se deliciavam com a deprimente performance. Mesmo cheia de raiva e indignação senti como que de mãos atadas, não apenas era perigoso demais interferir (as meninas muitas vezes estão acompanhadas de seus “cafetões”), como a própria polícia parecia conivente com a barbárie.

O pior foi descobrir, mais tarde, que cenas como aquela não são exceção: de acordo com a UNICEF entre 60 e 600 mil crianças de rua são vitimas de prostituição nas Filipinas, números que colocam o país em quarto lugar no ranking de prostituição infantil no mundo.

Assim, apesar de manterem as aparências para a comunidade internacional, com duas ex presidentes mulheres, a verdade é que as mulheres filipinas ainda sofrem muito com a falta de igualdade e a misoginia que marcam a história do país.

O outro lado da moeda

No entanto, é certo que as mulheres filipinas não estão caladas, e travam uma árdua luta pela manutenção e progresso de seus direitos. Em julho, muitas delas tomaram as ruas para protestar contra a disseminação de pensamentos misóginos pelo presidente, bem como contra suas políticas extremistas.

Além disso, em 20 de maio dezenas de mulheres começaram uma campanha online usando a hashtag #BabaeAko (que significa, em filipino, eu sou mulher) para denunciar o sexismo na administração de Duterte. A campanha foi tão bem sucedida que a revista TIME colocou suas criadoras na lista das 25 maiores influencias digitais, devido seu impacto global nas mídias sociais.

Outra organização incrível é a GrrrlgGangManila, inspirada nos encontros de libertação das mulheres nos anos 60 e no movimento riotgrrrl dos anos 90. As participantes encorajam mudanças através da arte e de eventos, criando um espaço sem julgamentos para discutir os desafios enfrentados pelas filipinas e, assim, iniciar um diálogo mais amplo entre as mulheres.

Apesar de todos os problemas, o exemplo filipino demonstra que as mais extremas situações e desafios criam espaço para mudanças e exigem um engajamento extremo e real que impulsione a sociedade para frente.

Filipinas x Brasil

Senti muitas semelhanças entre o Brasil e as Filipinas, as próprias ruas se assemelham muito as ruas brasileiras, com inúmeros santinhos e propagandas eleitorais coladas nas portas das casas, pessoas extremamente pobres vestindo camisetas de candidatos, uma paradoxal coexistência entre felicidade e sofrimento, e uma extrema sexualização de mulheres e meninas.

Mas conhecer meninas fortes e independentes, que estão se esforçando para mudar o cenário do país, apenas alimentou a minha esperança e a minha vontade de lutar pelos nossos desafios no Brasil. Espero que esse post tenha o mesmo efeito em vocês, principalmente pois temos ainda a oportunidade de evitar que candidatos misóginos alcancem posições de poder no nosso país.

Como minha visita foi muito breve (duas semanas e meia), senti a necessidade de trazer pra vocês o relato de quem convive diariamente e há muito tempo com a realidade filipina. Então encerro esse post com as palavras de uma de minhas amigas filipinas, a Julianne. Depois das nossas conversas no hostel em Coron, perguntei se ela topava responder por e-mail algumas perguntas que elaborei especificamente para esse post. Ela topou. O que vocês lerão é a tradução desse email.

Quer saber mais sobre as Filipinas?

Quem quiser saber mais sobre a questão filipina, seguem uns sites que a explicam muito bem (em inglês), e não hesitem em me contatarem no instagram ou por aqui mesmo, que ficarei muito feliz em explicar um pouco mais sobre a minha percepção acerca do país e a situação política que eles enfrentam.

Entrevista com Julianne Tan

Primeiramente, acho importante sabermos um pouco sobre você, sua idade, sua formação e outras informações que você quiser compartilhar. 

Meu nome é Julianne Tan, tenho 22 anos e sou uma garota de etnia chinesa nascida nas Filipinas. Meus avós nasceram aqui também e minha família já está estabelecida aqui há mais de 100 anos. Sou considerada uma minoria em nosso país, já que somos apenas quase 2% da população filipina. Sou recém formada em Comunicação pela Ateneo de Manila University. 

Você acredita que os direitos das mulheres já se desenvolveram bastante nas Filipinas?

Eu acredito que os direitos das mulheres se desenvolveram, mas somente no sentido de que hoje temos mais conhecimento sobre eles. As mulheres filipinas hoje expressam mais suas opiniões, mas eu ainda não vejo muita melhora nas respostas que elas estão obtendo na sociedade. Elas estão fazendo mais barulho, mas poucas pessoas estão prestando atenção. Ainda temos um longo caminho a frente. 

Tendo em vista que as Filipinas são, em sua maioria, tradicionalmente católicas, você vê alguma influencia da religião na forma como as mulheres são vistas pela sociedade?

Sim, o fato de sermos um pais cristão tradicional com certeza afeta a forma como as mulheres são vistas e tratadas. Tendo vindo de uma escola católica só para mulheres (ensino fundamental e médio) senti isso na pele.

As professoras e freiras nos ensinavam a nos comportar de uma certa maneira. Elas criaram uma imagem acerca do que uma garota deveria ser e esperavam que todas nos atendêssemos a essa imagem. Nossa criação foi bem rígida. Mulheres tinham que ser recatadas e gentis – e éramos sempre punidas quando expressávamos a vontade de ser ou fazer algo que não era considerado como o comportamento de uma ‘dama’. Tínhamos inclusive classes nos ensinando a limpar e organizar uma casa. 

O mesmo vale para mulheres em todo o país. 

Dessa forma, a forma como as mulheres filipinas são vistas é profundamente afetada pelas convenções tradicionais e religiosas. 

Você pode descrever alguns desafios que as mulheres enfrentam nas Filipinas?

Nossa, são muitos! Desemprego, assédio sexual, cantadas nas ruas, abuso sexual e doméstico, falta de representação real na política, falta de igualdade na força de trabalho…

Sendo uma mulher independente, você sentiu o peso da misoginia na infância e adolescência? Você acredita que é mais difícil para mulheres se formarem e serem bem sucedidas profissionalmente nas Filipinas?

Com certeza! Eu acredito que tenha começado com minha família. Eu tenho um irmão mais velho e outros primos homens e eu sempre percebi que eu não podia fazer as mesmas coisas que eles pelo simples fato de ser mulher. Se eu quisesse sair de casa eu precisava ir muito cedo e acompanhada de um homem. 

Além disso, eles eram muito mais rígidos comigo do que com os garotos da família. Em um certo ponto eu apenas aceitei que fazia sentido por eu ser menina. Eu pensava que as coisas eram simplesmente assim. Mas quando eu fui pra faculdade eu percebi que estava errada. Além disso, percebi que esta é a forma como as mulheres são tratadas pela sociedade. É palpável como a nossa sociedade diminui as mulheres, tentando nos fazer acreditar que não somos capazes de fazer o que os homens fazem.

Vocêse sente segura em Manila? O abuso sexual é um problema nas cidades e no interior das Filipinas?

Eu só me sinto segura em Manila porque minha família criou uma forma própria de ‘seguranca’. Quando saio tenho meu próprio carro, então não uso o transporte público, onde há muitos casos de abuso sexual. Mas sei que muitas mulheres não têm a mesma sorte. 

No interior eu me sinto com mais medo, então eu me tomo ainda mais cuidado. 

Vocêconsidera seu pais seguro para mulheres viajando sozinhas?

Depende muito da região. Alguns lugares são mais seguros que outros. 

Quais são seus pensamentos a respeito do futuro do direito das mulheres nas Filipinas? 

Eu acredito que vivemos um momento muito complicado. E como nosso presidente tem sido duro com as mulheres as mudanças estão mais distantes. Felizmente, eu acredito que nossa sociedade está se tornando mais consciente a respeito desses problemas. Então, com as oportunidades corretas, um dia nossos direitos vão progredir.” 

You may also like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *