Meu diário de viagem: Tailândia (Ao Nang)

22 de Abril

No aeroporto de Singapura indo pra Tailândia

Depois da minha experiência em Hong Kong, ir para a Tailândia pareceu muito menos assustador do que tinha parecido na minha cabeça lá no Brasil. 

A Tailândia, como Hong Kong, nunca fez parte da lista de países que eu sonhava em conhecer e eu só estava indo porque sabia que visitar o sudeste asiático sem visitar a Tailândia era loucura. Mas eu estava com medo, muito medo. Principalmente por ser um país famoso pelas festas intermináveis e muito loucas, algo que não fazia parte dos meus planos e que na história da minha vida só tinham me trazido problemas. 

Apesar dos meus dias em Hong Kong terem sido maravilhosos, e em nenhum momento ter me sentido triste pelo fato de não ter feito amigos, confesso que no avião a caminho de Krabi me perguntei se me sentiria da mesma forma se fosse assim durante o resto da viagem. 

O avião pousou de um céu muito azul e sem nuvens em um aeroporto muito pequeno e muito quente. Eu estava de calça jeans só pra garantir mais segurança, mas logo me arrependi muito dessa decisão. O calor era tanto que parecia que eu estava cozinhando dentro da calça. 

Na imigração ninguém pediu meu comprovante de vacinação da febre amarela, nem me perguntaram nada. O oficial só olhou pra minha cara e carimbou meu passaporte. Eu fiquei obviamente muito puta, porque conseguir esse comprovante foi uma das coisas que mais me causou dor de cabeça no Brasil. Quase tirei ele da mochila e obriguei o cara a olhar, mas achei que não era um jeito legal de chegar no país. 

Eu já tinha lido na internet que a forma mais barata pra chegar em Ao Nang do aeroporto era de van e assim que cheguei no desembarque várias tailandesas me abordaram oferecendo transfer pro hotel por um precinho muito barato. Saquei um valor que julguei ser suficiente pra me manter pelos próximos dias e escolhi a moça com cara mais confiável pra me vender a bendita van até Ao Nang. 

Eu, como sempre, era a única mulher sozinha na van, junto com alguns casais. E no caminho já me emocionei com a beleza da vegetação, bem típica da Tailândia, com as famosas pedras monumentais.

Reparei na tão notável diferença cultural que desde Hong Kong me chocava. Os países ocidentais, querendo ou não, acabam compartilhando muitas coisas que só quando conhecemos o oriente percebemos não serem “intrínsecas” à humanidade, mas sim um padrão estabelecido pela sociedade em que crescemos. 

Por todo o canto tinham fotos do rei, alguém muito respeitado pela população tailandesa, o que eu já esperava encontrar, também depois de tantos relatos. Eu na verdade estava bastante receosa porque não lembrava todas as regrinhas do que era permitido ou não fazer, e eu não só não queria desrespeitar o país, como também não queria ser presa. Fiz uma anotação mental pra pesquisar mais sobre. 

Quando o motorista avisou que tínhamos chegado, eu não acreditei, o hostel era literalmente a alguns passos da praia, além de ser muito fofo, com um restaurante saudável bem lindinho.

No balcão fazendo o check-in, vi uma menina muito linda que achei ser russa. Ela saiu de dentro do hostel e andou até um cara que estava sentado no café, dando um sorriso pra mim no caminho. Foi a primeira menina ocidental que eu tinha visto até agora em um hostel, porque em Hong Kong todas as meninas eram orientais. Pensei quão legal seria fazer uma amiga, porque já estava a algum tempo sozinha. 

Tomei um banho e fui andar na praia. Pra variar, estava muito emocionada de estar ali, era tudo muito lindo, igual nas fotos que eu via de casa, a areia branquinha e as pedras enormes no horizonte.

Diário de viagem Tailândia
Praia de Ao Nang em todo seu esplendor

Muitos turistas estavam aproveitando o sol deitados na areia e as pessoas pareciam muito felizes. Aproveitei pra tirar várias fotos, sozinha mesmo, e consegui quebrar minha capinha-carregador no processo. 

Agradeci a mim mesma mentalmente por ter tomado a decisão de ir pra Tailândia, estar ali parecia um sonho e eu estava muito animada por tudo que iria viver ali. 

Ao Nang era uma praia em Krabi, com uma vibe de cidade pequena, como que uma ilha de pescadores, mas toda equipada e ocidentalizada pra agradar os turistas gringos.

Como em Hong Kong, as 7 elevens estavam por toda parte, bem como as lojinhas de “artesanato” que vendiam roupas falsificadas de marcas ocidentais famosas, bolsas, chapéus e um milhão de souvenires. Me perguntei quem viajava até a Tailândia pra comprar uma camiseta da adidas. 

Com toda a emoção da viagem esqueci que não tinha comido desde Hong Kong, então quando a fome bateu, precisei encontrar um restaurante com muita urgência. Eu viro um ser muito selvagem, irritado e zonzo quando estou com fome.

Todos os restaurantes vendiam só comida tailandesa e eu queria tudo menos isso. Eu tinha provado comida tailandesa uma vez na vida, no Rio, e tinha sido horrível. Então quando encontrei um café remotamente ocidental entrei correndo. Era um pouco caro, mas pelo menos oferecia opções veganas. 

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Minha primeira alimentação em terras tailandesas

Eu já estava me acostumando com esse modus operandi de alimentação na viagem. Eu flutuava entre estar com muita fome ou muito cheia, porque quando finalmente comia precisava comer muito. 

Eu estava levemente preocupada com esse fato, mas desde o dia em que tinha saído do Brasil tinha decidido que essa obsessão, que tinha controlado tantos dias da minha vida, não teria espaço na minha viagem. Essa era uma jornada para me redescobrir, me dar espaço para ser e para viver a vida de uma forma nova, menos estressante, cobrando menos de mim e dos outros.

Então desde Los Angeles eu comecei a perder o medo de certas coisas e comidas que antes, literalmente, me assustavam. Comi pizza, pão branco, batata frita e hambúrguer vegano, sem arrependimentos. 

Óbvio que de vez em quando a preocupação voltava, no fundo da minha cabeça, igual um vício chato implorando pra que eu me colocasse pra baixo, me sentisse gorda e feia e decidisse me punir por tudo o que eu tinha comido até então. Mas eu estava aprendendo a mandar essa voz ir (perdão pelo meu francês) se foder.

Essa era uma sensação muito libertadora. Já era difícil o suficiente ser vegana, ser vegana e anoréxica durante a viagem seria, de fato, suicídio. 

Voltei pro hostel com muito sono, planejando descansar um pouco e depois assistir o pôr-do-sol na praia. No quarto parecia que só três dos cubículos tinham meninas hospedadas, mas eu não tinha visto nenhuma das outras meninas o dia todo. Fechei a cortininha da minha caverninha e só acordei pelo poder divino, quase em cima da hora do pôr do sol. 

Pra minha sorte a praia era logo ali, então ainda tive tempo pra parar numa 7 eleven e comprar uma água com gás. No caixa um menino estava terminando de pagar uma garrafa de tequila, outra de vodka e umas quatro cervejas. Fiquei impressionada.

Ele olhou pra mim, depois pra minha água com gás e disse em um inglês claramente americano “vai escolher a rota saudável hoje então?”. Eu sorri e percebi pela identidade na mão dele que ele era, de fato, americano, mais especificamente californiano. Mas a minha vergonha tomou conta de mim e eu não falei mais nada além de dar uma risada boba e um sorriso mais bobo ainda. 

Até hoje me arrependo disso. De verdade. 

Eu e minha água com gás sentamos na orla, assistindo o céu mudar de azul pra laranja, de laranja pra rosa, de rosa pra roxo, desenhando no céu um dos finais de tarde mais lindos que já vi na vida.

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Pôr do sol sem filtro na praia de Ao Nang

Agradeci por tudo, pela oportunidade de estar ali, realizando meu sonho, algo que poucos podem dizer que fizeram na vida. Mas ainda estava um pouco chateada de não ter conhecido ninguém. 

Quando anoiteceu decidi voltar pro hostel. E como se o destino estivesse respondendo aos meus pedidos, quando abri a porta do quarto dei de cara com a menina de mais cedo, arrumando suas coisas na cama do lado da minha. Ela era muito linda, e sorriu logo que me viu, igual tinha feito mais cedo, no café, mas não trocamos mais que um “hey”. 

Quando ela saiu do banho tomei coragem pra perguntar se ela sabia o que tinha pra fazer naquela noite e, pra minha surpresa, ela respondeu de uma forma muito fofa dizendo que não sabia exatamente o que tinha de festa, mas que ela iria com um amigo no mercado de rua noturno e que eu podia ir junto. 

Continuamos conversando por muito tempo, e ela me disse que seu nome era Dayna, que ela vinha do Canadá, estava viajando há três meses sozinha pelo sudeste asiático e era vegana, que nem eu. 

Durante a conversa já percebi que seríamos boas amigas, porque éramos muito parecidas. Ela tinha acabado de chegar de Chiang Mai, mas antes disso tinha passado um mês nas Filipinas e outro em Bali, sozinha também.

Conhecer alguém que estava quase no final de uma jornada muito parecida com a minha só me deu mais segurança de que eu tinha feito a escolha certa. Porque eu sempre admirei pessoas assim como a Dayna, verdadeiros espíritos livres. 

Ela me contou que no meio da viagem tinha conhecido um dj e que eles tinham viajado o resto das Filipinas juntos. E que, apesar de eles não estarem oficialmente comprometidos, ela tinha decidido não ficar com mais ninguém pelo resto da viagem e depois de passar um mês na Tailândia voltaria pra Manila pra passar o último mês de viagem dela ao lado dele. 

Pensei o quão difícil seria manter esse relacionamento, ela no Canadá e ele em Manila. E em como, infelizmente, as pessoas que mais combinam com a gente, as vezes moram do outro lado do mundo. 

Ela disse que não pensava muito nisso e que só queria aproveitar enquanto eles estivessem próximos. 

Nos arrumamos e decidimos jantar no próprio café do hostel. Pedimos duas pizzas veganas e conversamos bastante. O amigo dela era da Estônia e, comparado com nós duas, falava bem pouco. 

Conversamos sobre a Tailândia e sobre a experiência de viajar a longo termo. Os dois juraram de pé junto que em pouquíssimo tempo eu estaria cansada de viajar. Eu duvidava muito. Eles ainda me aconselharam a visitar Chiang Mai, a cidade preferida dos dois na Tailândia e, segundo a Dayna, um lugar que tinha tudo a ver comigo. 

Eu já tinha ouvido falar de Chiang Mai, que era lotada de templos e conhecida por ser uma das mecas dos nômades digitais, como Bali. Mas, planejando a viagem, eu estava muito mais interessada nas praias tailandesas que nas cidades, tanto é que Bangkok não fazia parte do meu itinerário. 

No meio da conversa começou a chover muito, então a gente teve que adiar um pouco o plano de ir no mercado noturno, e quando finalmente fomos já estava fechado, com algumas “barraquinhas” ainda abertas.

O mercadinho era como uma festa junina, inclusive na decoração, com umas bandeirinhas penduradas em barbantes com luzes, e barquinhas vendendo comidas típicas, bugigangas e artesanato.

Fiquei muito chocada com uma delas, servindo um sushi que muito provavelmente estava sendo exposto ao calor, aos mosquitos e a todas as doenças possíveis desde muito cedo. O cheiro por si só já gritava que aquela era a pior comida que alguém poderia decidir comer naquela noite. 

Em uma barraquinha um pouco menos duvidosa, ao lado do stand de sushi, encontramos algumas comidas tradicionais da Tailândia: a manga com arroz grudento, a fruta fedida que tinha em toda esquina (chamada Durian) e espetinhos de frango e porco.

A Dayna me convenceu de que eu precisava provar a manga com arroz grudento que, pra minha surpresa, era vegano, feito com leite de coco tailandês. Eu provei e fiquei chocada porque era muito gostoso. Os gostos que aparentemente não combinavam na verdade faziam muito sentido dentro da boca. Ali nasceu uma breve e intensa história de amor por mango sticky rice. 

Diário de viagem Tailândia
O famoso Mango Sitcky Rice… esse tava pronto a um tempão e mesmo assim tava deli

Andamos de volta pro hostel e paramos em um bar com música ao vivo, um dos principais da cidade, mas que estava bem vazio por conta da chuva. Era uma banda tailandesa tocando rock raíz e, mesmo sendo muito engraçados, eles mandavam muito. Quebrei minha promessa de não beber e pedi uma caipiroska e apresentei pros dois a iguaria brasileira que tinha chegado até a Tailândia. 

Decidimos ir embora cedo porque estávamos todos cansados e tínhamos planos de acordar cedo no outro dia. Os dois iam fazer algum passeio pela manhã e eu queria passar o dia inteiro na praia torrando. Desde que eu tinha me mudado do Rio que eu não sabia mais o que era ser bronzeada. 

Chegando no hostel percebi que, de fato, estávamos sozinhas no quarto, exceto por mais uma menina que já estava dormindo. Acho que isso aconteceu por conta da Low season, já que o hostel era maravilhoso, com camas grandes, confortáveis, um ar condicionado bem poderoso e um cubículo espaçoso pra todas.

O banheiro era rústico, como era de se esperar em um hostel, mas sempre limpo e com um chuveiro bem gostoso. Além disso o ambiente todo era muito legal, com  um staff de mulheres tailandesas super legais e fofas, que fizeram de tudo pra que nós tivéssemos a melhor experiência possível em Ao Nang. 

Fui dormir muito feliz por ter finalmente conhecido alguém, e também por estar ali. Fechei os olhos sonhando com tudo o que a Tailândia ainda iria me proporcionar. 

23 de Abril

Segundo dia em Ao Nang 

Acordei cedo e assim que abri minha cortininha dei de cara com outra “menina” que também estava acordada.

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ela já se apresentou, dizendo que vinha do Japão e tinha 32 anos. Assim como a Dayna ela tinha acabado de chegar de uma viagem sozinha pra Filipinas, onde tinha ficado por um tempo fazendo um curso de mergulho. 

Ela me disse tudo isso enquanto eu ainda estava sentada na cama, sem compreender muito bem o que estava acontecendo, e fiquei muito surpresa já que minha experiência com outros orientais, principalmente japoneses, tinha sido muito diferente: a maioria deles falava pouco, tinha vergonha de dar a primeira palavra e falavam extremamente baixo. Ela disse que passaria o dia em um outro curso de mergulho, mas que adoraria combinar de fazer algo, porque ela estava se sentindo muito sozinha.

Eu disse pra ela que adoraria e que eu tinha muitas perguntas sobre o Japão e sobre as Filipinas. 

Depois dessa conversa bem longa com a japonesa, desci pra tomar café e provei o smoothie bowl do hostel pela primeira vez. Era bem menos do que eu esperava, mas, ainda assim, bem gostoso. 

A Dayna ainda estava dormindo, e eu sabia que de manhã ela tinha planos com o Estônio, então prossegui com o meu plano de passar o dia na praia.

A caminho da areia, vi uns garotos tailandeses jogando bola e perguntei se eu podia jogar também. Passei uma hora jogando bobinho e só parei quando já não aguentava mais. Foi muito legal perceber a simplicidade e a felicidade dos meninos e como eles foram receptivos e legais comigo. E também como eu jogava futebol bem, mas só na minha cabeça. 

Decidi tomar um banho no mar pra refrescar, já que todo aquele exercício tinha me deixado toda suada. Infelizmente fui surpreendida por uma água muito, mas muito quente, e nada refrescante. Fiquei muito chateada e percebi que não conseguiria ficar estirada no sol por muito tempo, já que o calor era algo muito surreal, e muito mais forte que o calor com o qual eu tinha aprendido a conviver no Rio.

Decidi explorar a praia. Fui andando até o final da orla e encontrei, no final esquerdo da praia, uma trilha que resolvi seguir. Nos primeiros degraus da escadinha dei de cara com um lagarto que me assustou tanto que eu quase caí pra trás.

Diário de viagem Tailândia
Meu amiguinho lagarto que quase me derrubou da escada

A trilha levava pra uma outra praia “privativa” de um hotel. Para entrar era necessário assinar um livro de visitas que era vigiado por um segurança, logo no final da escada que encerrava a trilha. O segurança me informou que eu só poderia usar a areia e a água, mas não podia ir além de uma fita que separava a área do hotel da área “pública”. 

O lugar era muito lindo, com um porto também privativo pra excursões exclusivas aos hóspedes do hotel. A praia em si estava completamente vazia então aproveitei pra tirar várias fotos sozinha.

Só que no meio da minha “sessão” a Dayna e o amigo dela chegaram. Devo ter ainda posado por uma hora até que avistei eles assistindo e rindo muito.  

Foi engraçado e eu fiquei supresa por não sentir vergonha nenhuma. Acho que viajar sozinha me ajudou a aceitar melhor o “ridículo”, talvez pela alta possibilidade de eu nunca mais ver nenhuma das pessoas que me cercavam. 

Diário de viagem Tailândia
Uma das fotos que tirei sozinha (amém tripé)

Nós voltamos juntos pra Ao Nang e almoçamos em um restaurante indiano e vegano. Como os dois gostavam de comida apimentada eles amaram, mas eu não consegui comer nem metade de nada e juro que passei uns dois minutos com lágrimas escorrendo involuntariamente pela minha cara por causa da pimenta.

Diário de viagem na Tailândia
Nada de comida tailandesa na Tailândia…

Então saí do restaurante ainda com muita fome, mas por sorte em todas as esquinas tinham pelo menos umas três barracas vendendo frutas, então pedi pra que parássemos em uma delas pra eu comer. 

Juro pela minha vida que aquele foi o melhor abacaxi que eu já provei na minha vida, sem exagero. Como eu viria a descobrir, as frutas tailandesas são as melhores do mundo e são muito, mas muito doces, de um jeito muito diferente das frutas brasileiras. Até as pitayas têm gosto na Tailândia, e a manga é firme e doce, e o melão também. 

Na volta pro hostel, eu e a Dayna resolvemos parar numa farmácia e comprar várias coisas pra fazer uma “noite das meninas”. Compramos umas máscaras faciais, uns cremes de cabelo, e passamos a noite rindo das nossas caras com aquelas máscaras ridículas. Combinamos de na manhã seguinte ir pra Phi Phi, mesmo não fazendo parte do meu plano conhecer a ilha mais festeira da Tailândia.


 

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