Por que estamos deprimidos, e o que faremos a respeito disso?

Sou garçonete em um restaurante japonês, e como eterna observadora da condição humana, rapidamente percebi um paralelo entre o drama de um restaurante e o drama do mundo todo.

Veja bem, um cliente, como qualquer ser humano, busca apenas uma coisa: ser ouvido, visto, e, assim, sentir que é importante. Não no sentido negativo que damos ao conceito “importante”. Mas sim no sentido de que alguém se importa, que alguém reconhece a existência dele e o que ele precisa naquele exato momento.

Então, fazer um cliente feliz não significa prestar um serviço perfeito (minhas maiores gorjetas vieram de mesas em que o serviço tinha tido falhas). Fazer um cliente feliz significa demonstrar que você se importa. Escutar com atenção ao pedido, sorrir, compreender aquela pequena janela de existência que vai cruzar com a sua por alguns minutos.

E essa é a metáfora perfeita para a existência humana e para todos os nossos profundos medos e ansiedades. Precisamos nos sentir importantes. Novamente, não no sentido de poder, de superioridade, mas sim de que nossa existência tem um sentido, que nossa existência importa.

Mas as narrativas que nos explicam o mundo não nos servem nesse sentido. E falham miseravelmente ao tentar traduzir um senso de propósito à existência humana.

E é por isso que estamos deprimidos.

Vejamos, por exemplo, a narrativa da religião (e aqui foco nas religiões primordialmente ocidentais). A narrativa do criador, do arquiteto, que criou tudo que existe. Que soprou em suas narinas para que houvesse vida.

Nessa narrativa, você, sua existência, é um produto. Você não foi partícipe e sua vida é tão coisa como todo o resto. Você não é desse mundo, você veio ao mundo, e o que você é tem limites claros que te separam do resto.

A partir desse ponto de vista, somos nada mais que argila. Uma coisa que necessitou de uma energia externa para vir à vida.

Como resultado, vemos a nós mesmos como coisas, artefatos. Algo que foi criado, bem como todos os objetos que nos cercam.

Há, portanto, nessa narrativa, uma diferença fundamental entre a coisa e o criador.

Isso porque o mito do deus arquiteto nasceu da necessidade política de explicar o mundo como uma monarquia. De explicar a autocracia como parte indissociável da natureza do universo. O universo é regido por um rei, assim como os homens devem ser. É o jeito que as coisas são, naturalmente.

Mas essa narrativa deixou de servir há um bom tempo. E começou a se esvair quando a ciência deixou de se perguntar qual a substância fundamental do universo, isso é, o que constitui a matéria e a separa de todo o “resto”.

O resto, como a ciência percebeu, é feito da mesma “substância” que a matéria. Então a matéria, como algo dissociável e delimitado, é apenas uma criação do cérebro humano.

Assim, a ideia de um arquiteto que criou as coisas a partir de uma substância fundamental teve que dar espaço à uma explicação “racional” do universo. A ideia de um deus já não servia ao objetivo primordial da ciência: prever acontecimentos a partir da determinação de padrões.

E aí dissemos que Deus estava morto.

No entanto, apesar de termos destronado o rei, mantivemos a concepção de que existem leis. Leis que criam e extinguem espécies e o universo todo de forma completamente arbitrária. Até porque sem elas a própria ideia de ciência seria rídicula: se não há padrões a serem descobertos, a ciência é obsoleta.

Nessa “visão automática do mundo”. O universo é algo que está acontecendo através das leis da natureza, e a nossa existência, como todo o resto, é um acaso. Uma reprodução de padrões e evolução que culminou na existência do homem.

E assim como surgimos do nada, da lei natural que premia a perpetuação da existência da espécie mais forte, estamos fadados a lutar contra a natureza.

Fadados a buscar vida no espaço, a reinarmos perante todos os demais componentes da Terra, e a desafiar a ocorrência do tempo e a morte.

E, assim como a narrativa da religião, a interpretação dada pela ciência nos coloca fora do mundo.

Como resultado, o ser humano se vê como um eterno estrangeiro em um universo sem sentido com quem trava uma batalha infindável.

E, mesmo quando nos convencemos que acreditamos na narrativa da religião, é na verdade a interpretação da ciência que vive encrustada em nossa existência social.

Por esse motivo tememos a morte e, paradoxalmente, por esse motivo flertamos ao menos uma vez ao longo da vida com o suicídio. Se não há sentido no universo, não há sentido na vida.

E, como o Meursault de Camus, nos sentimos desafiados a criarmos nós mesmos um sentido já que o universo não nos provê um. Sentimos que nós, como indivíduos, damos significação ao mundo e aos acontecimentos que dele surgem.

Daí, decorre o sentimento de hostilidade e desespero de que você somente existe dentro da sua pele e, portanto, deve travar um combate com o exterior para não apenas dar sentido a sua vida, como perpetuá-la.

É por isso que estamos obcecados na ideia de legado, de “deixar nossa marca no mundo”, de fazer algo que viva além de nós mesmos.

E é por isso que todos os meus clientes no restaurante querem a mesma coisa: serem vistos. Sentir que a sua existência importa o suficiente para que outro ser humano se sinta interessado a descobri-la, a explorá-la.

Como consequência, expomos cada vez mais nossas vidas, buscamos o maior número de relacionamentos interpessoais, a glorificação da existência pelo like, pelo compartilhamento, pelo interesse do outro no que você faz e como você vive.

Mas, como era de se esperar, não somos capazes de perpetuar essa sensação de importância, de propósito.

E quando deixamos de nos sentir vistos, quando percebemos que somos vistos por algo que criamos ao invés do que somos, e quando a luta do eu contra o outro e contra a natureza se torna cansativa demais, perecemos.

Esse, infelizmente, é um sintoma da sociedade. É um produto das mirabolantes tentativas humanas de explicar e dar sentido ao universo.

Seguimos nessa incansável luta para dar sentido a nossa existência, para acreditarmos que existe um motivo para estarmos aqui, já que fomos levados a acreditar que somos frutos do acaso, fadados à morte, a nos esvair e desparecer. E no fundo sabemos que, para continuarmos, precisamos ser mais do que isso.

No entanto, é impossível tentar dar sentido à existência humana tentando descrever o universo a partir da nossa visão ultra focada e centralizada.

É necessário ultrapassar os limites dos mitos que estão comprometendo a nossa compreensão do mundo e de nós mesmos.

Para isso, é necessário abandonar a ideia de “coisa” como um todo. O que pode parecer impossível, mas é a única forma de realmente compreender o sentido e o significado da sua existência.

Coisas, como tais, não existem. Coisas são explicações que damos a fragmentos da natureza que estão sempre acontecendo em conjunto com o todo, mas que só conseguimos compreender e controlar ao fixa-los e separa-los do resto.

A realidade é que só existem processos. Eternos acontecimentos. Nada está fixo.

A realidade não existe como você a percebe. Você a transforma e categoriza para conseguir compreende-la.

Vejamos uma árvore: a árvore como objeto não existe. A árvore que você enxerga agora já não é a mesma de ontem, ou a de um segundo atrás. Coisas não são coisas, são processos.

E não processos individuais, mas processos interdependentes e indissociáveis.

A árvore não pode acontecer sem que o sol aconteça, sem que o vento aconteça, sem que o universo como um todo esteja acontecendo. É um processo contínuo e uno.

A sua existência, assim como a de todo o resto, é também um processo. O corpo que está lendo e interpretando esse texto literalmente não é o mesmo que você tinha quando nasceu. Todas as suas células são novas e terão desaparecido daqui um tempo.

Não só isso. A forma como você enxerga, pensa, compreende e interpreta não é a mesma.

Você é um processo. É um eterno acontecer. E como tal, você é tudo que acontece. Porque você acontece em conjunto com todo o resto.

Sem os demais acontecimentos, você não aconteceria. E o mais importante: sem você os demais processos também não aconteceriam.

Apesar de parecer um conceito de difícil compreensão, é na verdade muito simples. Para descrever qualquer “coisa” é necessário relativiza-la, coloca-la em relação a outras “coisas”.

É impossível descrever quem você é sem descrever o que você faz, aonde você faz, como você faz ou com que você faz. Sem colocar a sua existência em paralelo com outras existências.

E é aí que mora o segredo: a sua existência só é possível porque todo o resto existe. E todo o resto só é possível se você existe.

Eu só sei que existo porque você me enxerga, me toca, me percebe. Eu sei que existo porque afeto o mundo e sei que o mundo existe porque ele me afeta.

E se para descrever o meu comportamento eu preciso descrever o seu comportamento e o comportamento do ambiente que nos cerca, a única conclusão possível é a de que existe apenas um sistema de comportamento.

Assim, o que eu sou envolve o que você é. Eu não saberia quem eu sou se eu não soubesse quem você é. E você não saberia quem você é se não soubesse quem eu sou.

E se eu preciso que você exista para conseguir definir a minha existência, e você precisa que eu exista para definir a sua, então nós não somos distintos. Somos o mesmo.

O mesmo pode ser dito em relação ao mundo, já que o que chamamos de “mundo exterior” é tão você quanto o seu “mundo interior”, pois é necessário que eu explique o seu mundo exterior para explicar quem você é da mesma forma que eu preciso explicar o seu mundo interior para explicar quem você é.

Então, a sua pele não te separa do mundo exterior. É a forma como você acontece com o exterior e ele acontece com você.

Mas nós não fomos ensinados a nos perceber dessa forma. Não nos sentimos partes do universo, não compreendemos o porquê existimos e acabamos deprimidos. Tudo porque acreditamos na ilusão que nós mesmos criamos. A ilusão da separação.

Nos enxergamos da mesma forma que vemos ondas no oceano: nos parece que as ondas surgem, seguem uma trajetória e se esvaem. No entanto, as ondas são o próprio oceano, e quando elas se esvaem o oceano continua sendo oceano, como foi desde o começo, porque não há separação. A “onda” é o oceano acontecendo.

E é vital que aprendamos a nos sentir como parte do todo. Por que só assim é possível compreender que nossa existência é fundamental.

Somos algo que o universo inteiro está fazendo, assim como as ondas são algo que o oceano inteiro está fazendo.

E compreender isso é compreender a grandiosidade do que somos: não fantoches sendo empurrados pelo acaso, nem por um deus sentado no trono, mas sim o universo todo.

E o sentido da sua existência não é tornar-se “algo”, mas simplesmente ser. Pelo simples ato de existir, todo o resto existe.

E da mesma forma que você faz seu coração bater, seus rins e fígado funcionarem, sem que você seja ensinado como faze-lo ou lembre-se de como você o faz, você faz com que o mundo venha à vida sem que você perceba.

Você transforma ondas em cor, em calor, em imagens. Você literalmente cria um universo inteiro, simplesmente porque vive.

E a realidade que você cria é tão única, e ao mesmo tempo tão interdependente das demais, que é impossível não regozijar por estar vivo. Pelo fato de que todo o resto existe e vive através de você assim como você vive através de tudo.

E é essencial que haja essa transformação em percepção para que você consiga parar de buscar ansiosamente por um sentido. Para que você deixe de se sentir insuficiente. Para que você compreenda que há um propósito para a sua existência. E que não há porque temer a morte.

E mais: para que você compreenda que não há uma guerra entre o eu e o outro, nem entre os homens e a natureza. E que, assim, você encontre paz, compaixão, serenidade.

Obviamente, em um mundo condicionado à compreender a realidade sob os tais termos do modo automático, ou da monarquia divina, é um exercício diário observar a realidade como ela é.

Assim, mesmo que esse texto pareça complicado demais, ou abstrato demais, é possível compreender empiricamente tudo que eu tentei dizer:

Encontre um lugar na natureza. Feche seus olhos. Foque nos sons que você escuta ao seu redor. Perceba que eles estão acontecendo. Perceba que eles surgem e vão embora. Então, permita que os seus pensamentos venham. Perceba que eles surgem e vão embora. Perceba que eles também estão acontecendo.

O mundo ao seu redor acontece a você da mesma forma que o seu mundo “interior”. Tudo está acontecendo em conjunto.

Sinta-se. Permita-se estar. E você conseguirá compreender tudo aquilo que as palavras jamais serão capazes de explicar: você é o universo todo acontecendo.

Talvez seja por isso a recíproca alegria nas breves interações humanas que vivo diariamente no restaurante: somos o universo inteiro enxergando a si próprio em suas diferentes formas. E nos sentirmos reconhecidos é como novamente atestar que, no fundo, somos o mesmo e existimos.

Espero que esse texto te traga alívio e tire esse enorme peso de dar sentido a si próprio das suas costas.

Eu te amo, te enxergo e te agradeço pela sua existência: sem ela eu não seria.

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