Quem você está buscando quando vai se encontrar?

quem você está buscando quando vai se encontrar?

Quando eu primeiro decidi viajar o mundo muita gente me perguntava o motivo, o que eu estava buscando. Eu não tinha uma resposta. Ainda não tenho uma resposta completa, pra ser sincera. Eu só sabia que era algo que eu devia fazer. Até que alguém, talvez eu mesma, mencionou que eu estava indo encontrar a mim mesma. “Ela está indo se encontrar”, “que bom que você se encontrou!”. E eu por um tempo comecei a acreditar que essa era a razão: me encontrar.

É estranho viver em uma sociedade em que é possível se perder de si própria. Afinal, estamos constantemente em nossa pele, em nossa mente. Então, por que nos perdermos? Será que nos perdermos? E quem queremos encontrar?

Ontem, tive um pouco mais de clareza sobre esse assunto. Engraçado como quando buscamos respostas elas parecem fugir, mas quando paramos de procurar elas simplesmente aparecem, como uma intuição ou um sussurro do universo (mas isso é um tema para um próximo texto).

espiritualidade E SE ENCONTRAR

Essa busca por si própria é mais uma das ilusões de um mundo que tenta fixar o imóvel, explicar o inexplicável, nomear o inominável. Veja bem, você não é uma coisa, um objeto, um ser fixo no espaço-tempo. Você é como as águas de um rio, como Heráclito dizia:

“Nenhum homem pode se banhar duas vezes no mesmo rio. Quando se volta ao rio ele já não é mais o mesmo, nem o homem”.

E como o tempo é algo que não se pode parar, como o fluxo da sua respiração, a verdade é que a você desse milésimo de segundo não é a mesma que a do próximo. Então, tentar apreender-se como uma coisa que é, é uma busca fadada ao fracasso. Talvez por isso nos frustramos tanto. Queremos tanto entender a nós mesmas, mas estamos em constante mudança, e o que somos hoje já não será o mesmo amanhã.

Para tentar explicar de uma forma menos filosófica. Imagine que você tenha que explicar para alguém quem você é, sem as classificações ordinárias do que você faz, do que você gosta… quem você é? É uma pergunta tão complexa quanto explicar quem é deus, e tenho começado a acreditar que, na verdade, as duas perguntas são a mesma.

Então, o que estamos de fato buscando quando tentamos nos encontrar?

O que vim a aprender é que na verdade estamos buscando pertencer. Tentamos encontrar certas qualidades em nós mesmas para podermos nos encaixar em uma caixinha pré-existente. E essa é também outra busca fadada ao fracasso, porque não há palavras, categorias, ou atributos que consigam definir quem você é. Você ama muitas coisas distintas, você é uma combinação única de pensamentos, experiências, encontros… E não há absolutamente ninguém exatamente como você no mundo.

Então, você me pergunta, não existe cura para essa angustiante busca? Vou permanecer nessa ansiedade de tentar compreender quem sou, onde estou inserida no mundo e pra onde vou?

Bom, aqui está a ideia que tem crescido no meu coração e que, de repente, veio à vida: a própria busca tem nos afastado de nós mesmas e do nosso verdadeiro pertencimento.

Isso porque estamos aplicando a nós mesmos regras científicas que, por mais úteis que sejam, não servem para provar o que só pode ser experimentado subjetivamente.

Você tenta pegar isso que você é, esse “eu”, e separá-lo, classificá-lo, e explicar cada pormenor da sua estrutura, inclusive prevendo um provável resultado. Porque você desesperadamente quer saber o resultado, eu sei porque eu também quero. Descobrir desde já quem vou ser, o que afinal de contas eu vim fazer aqui, qual o sentido da minha existência, etc. E são todas essas coisas que nos mantém ansiosas.

yogaE SE ENCONTRAR

Pois bem, essa dissecação do “eu” é o que tem separado você de si própria e, consequentemente, de todo o resto. É essa absurda necessidade de dar nome às coisas que tem aprofundado esse sentimento de não pertencer, porque a classificação necessariamente te separa do grupo, do fluxo. É como pegar uma gota da água do rio e descrever cada uma de suas microscópicas características, de repente ela já não é mais o rio, ela é tudo aquilo que você nomeou.

E você é agora tudo aquilo que te disseram, todas as características objetivas que jamais conseguiriam construir a subjetividade do que você é verdadeiramente. Se te apresentassem todas as características possíveis daquela gota, mesmo assim você não conseguiria chegar à complexidade e imensidão do rio.

Então, eu poderia tentar me explicar para você da seguinte forma: meu nome, meu endereço, meus hobbies, minhas comidas preferidas, minha profissão, minha árvore genealógica… Mesmo assim, você pra sempre permaneceria em um conhecimento superficial de quem eu sou. E se você tenta se explicar a si própria da mesma forma é claro que também vai permanecer em um conhecimento superficial de quem você é.

O que eu comecei a perceber é que a minha busca por quem eu sou tem sido como um hamster correndo em uma roda: não chega a lugar algum.

O você que você está buscando nomear, fixar e enfiar em uma caixa não é uma gota. É um rio.

E a única forma de compreender o que o rio é, é mergulhando nele. No entanto, mesmo assim, você só vai compreender o que o rio é naquele exato momento, porque já já ele não será o mesmo.

O que eu estou tentando dizer, da forma mais descomplicada possível (porque é bem difícil explicar o que só é possível sentir), é que a busca na verdade é tão simples quanto parar de buscar. É mergulhar no agora. No que você está sentindo agora. Não o teu nome, sua história, seu endereço, sua profissão…

Você é parte de um fluxo que ultrapassa você. A fronteira onde você começa e termina é ilusória, e criada pela sua mente para que você consiga viver de uma forma útil. Mas a utilidade muitas vezes não basta, porque você precisa de substância.

E o pertencimento que você está buscando, a substância, o senso de existência e compreensão de si própria, só pode ser alcançado empiricamente, quando você consegue sentir as fronteiras desaparecendo e esse “eu” que você é se derretendo e se misturando com a homogênea existência que te cerca no agora. No presente.

Então, ao invés de tentar dissecar a si própria e colocar-se em sob a mira de um microscópio, busque uma visão macroscópica. Você não pode entender essa gotinha que você é sem conhecer o rio, porque no final das contas, você é o próprio rio.

E é muito difícil explicar isso em palavras, e eu espero que você esteja compreendendo um pouco do que quero dizer. Mas, mais do que isso, eu espero que você se permita experimentar isso.

meditação

E é tão simples quanto sentar lá fora e prestar atenção nos sons, nas sensações, nas cores, na luz. É tão simples quanto fechar os olhos e ouvir a sua respiração. Você só existe agora, nesse momento. O “eu” do passado não é você, nem o “eu” do futuro, então é inútil buscar-se neles. Busque no agora.

Essa você que existe agora não vai ser mais a mesma daqui a pouco, então a honre, experimente a si própria completa e profundamente. Que delícia ser quem você é nesse momento!

É engraçado, mas desde que comecei a pensar assim, fico com saudades de quem sou. Meio doido, mas é tão precioso ser quem você é agora. Eu nunca mais vou ser exatamente quem eu sou nesse momento. Mas é uma saudade gostosa, que se confunde com a gratidão de poder ser tantas, sentir tanto, e ser parte de um rio que é tão maior que eu.

E quando você se sente assim, você consegue compreender que é importante ser agora o que você é. Até quando o que você é agora não parece ser o suficiente. Eu te prometo, você é e está exatamente onde devia estar. E as dificuldades e momentos difíceis que você passou fizeram você ser esse rio que você é agora. Não tão raso quanto na nascente, nem tão profundo quanto quando você se reencontrar com o oceano.

Então, pare de buscar lá fora, pare de buscar com sua mente humana e objetiva.

Permita-se sentir o fluxo, o eterno movimento, a jornada. É tão clichê, tão simples. Mas a vida é simples, somos nós que complicamos. Talvez por isso invejamos os animais. Eles sabem. Eles não se preocupam com o futuro, porque entendem. Eles são parte de algo maior e confiam na sabedoria do ciclo que os ultrapassa. E a natureza os recompensa com um sistema tão complexo que os permite viver.

Enquanto nós ousamos pensar-nos mais sábios que a natureza, que a correnteza que nos guia, e metemos os pés pelas mãos tentando viver mais, viver melhor, conquistar mais e mais. E é tão simples: o agora basta, estar vivo basta. Nossa inteligência jamais ultrapassará a sabedoria que foi construída há tanto tempo antes de nós e que nos ultrapassará.

Por isso, fuja dessa necessidade mundana de se classificar, de pertencer a uma categoria criada pela mente humana. Feche os olhos e sinta, você pertence a algo muito mais lindo, muito mais incrível. Você é o resultado de tantos fatores, tantas coincidências, tantos erros, tanto, tanto…

E quando você compreender isso, amar a si própria não será um esforço, mas tão somente uma consequência. Afinal, como não se apaixonar por algo tão imenso, belo e improvável como você?

 

Mais sobre esse tema em:

Viajar o mundo não me salvou: nem vai salvar você

Viajar o mundo não me salvou: nem vai salvar você (parte II)

You may also like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *