sobre dizer adeus

Vez ou outra me pergunto o preço dessa tal liberdade. Dessa minha resistência em ficar, lançar raíz. Ser livre é também outra forma de dor. Renúncia.

Falta. Teu cheiro, tuas mãos quentes e a forma como me fazia rir até meu estômago doer. Você ria dos sons da minha risada. Eu era sua.

Você não me pediu pra ficar, e eu já tinha partido quando me disse adeus. Era noite. Era frio. Palavras ficaram presas na garganta, e quando o choro veio, entendi que você era minha casa.

Música. Você era música. E você ouvia música nos meus movimentos, na minha respiração, no meu sorriso. Eu vi o futuro nos seus olhos, mas ainda não era eu. Nem sei se sou.

Dói-me aquele beijo não dado. Teu rosto pelo retrovisor. Mas eu não abri a porta.

Quando quis correr, já voava.

A agonia me manteve acordada, e cheguei do outro lado do mundo com o gosto amargo do arrependimento. Quis voltar, quis te tocar pela última vez.

Ainda quero.

Teu adeus foi o que mais doeu, e talvez você nunca saiba. Quis te dizer tantas coisas. Elas se perderam. Pesam num coração que ainda soletra teu nome de cor.

Até quando essa liberdade vai me manter só?

Lembro de lençóis brancos e teu rosto adormecido. Acordar com o som da tua voz. Te ouvir cantar no chuveiro. O cheiro do café pronto no primeiro andar.

Quando é difícil dormir, toco aquela música. A minha música. Aquela que teu coração fez pro meu. Quando você se apaixonou pela minha voz sonolenta na mensagem em áudio. E eu não soube. Ainda não sei. Retribuir.

Mas eu já te amava inteiro. Só não sabia dizer. Logo eu. Você ria da minha incapacidade de ficar quieta.

O amor é confuso meu amor, e na minha mente surge como a fumaça de um cigarro tragado após um dia de trabalho. Mal consigo enxergar. Sufoco.

Talvez você nunca vá saber. Talvez eu jamais vá saber dizer. Talvez já não faça mais sentido pra você ouvir. Mas eu queria ter sido outra pra você.

Por você.

Da tua alma sobram lembranças. Me visitam quando há silêncio. Porque te amar me fez ser quem eu sou.

Um choro surge. E é a incerteza de encontrar outro espírito que fale tão alto dentro de mim. Olhos azuis que viram em mim o que eu ainda não conhecia. Quando teus dedos tocaram minha pele eu virei estrelas.

Lembra quando você entrou naquele táxi em Copacabana? Ali foi a primeira vez que tive medo. Medo desse teu jeito de virar minha cabeça. De me fazer sentir criança. Você e suas meias de desenho animado.

Chorei tua partida. Com o desespero de uma criança que se perde dos pais. Não quis me perder de você. Quis te guardar pra sempre.

E quem partiu fui eu. Que coragem tenho, então, de clamar teu nome de volta?

Será que olharia? Será que veria de novo por dentro da minha armadura? Lá naquele fundo em que você fez casa.

Nem sei se de vez em quando tua mente volta pra lá. Pra aquele espaço que era teu no meu peito. Para aquela praia em Malibu. Gosto de vinho barato e quente. Minha voz lendo teu livro em voz alta. Desejando ser nossa história. Querendo ser a totalidade do teu universo.

Você traçava meu rosto com os dedos, e eu me via arte.

Passo boa parte dos meus dias sem que você sequer cruze minha mente. Mas então, algo acontece. Algum som. Algo rídiculo. Nossa música tocando. Aí me torno de novo: aquele corpo. Aquele corpo que éramos juntos.

Um ser movente num quarto azul, na neblina do vapor quente do teu banheiro. Repenso minha vida inteira.

Não me arrependo. De nada. Exceto aquele último beijo.

Talvez nele você tivesse compreendido. Olhando nos meus olhos, você visse. Parte de mim ficou ali pra sempre.

Nos quartos de hotel, nos bancos de táxi, nos teus braços, no teu colo, no som da tua voz chamando meu nome.

Eu reconheceria teu rosto numa multidão. E te procuro dentro dessa grandeza que encontrei dentro de mim. Tua alma gentil faz parte da minha.

Será que um dia sentirei o tempo congelar, como quando encontrava teus olhos azuis no meio de um rabisco de seres humanos? Você me olhava como quem decora uma obra de arte. Lia notas musicais nas sutilezas das minhas arestas.

Talvez fique apenas em sonho. Essa sensação de levitar. De pertencer.

E de vez em quando lembro dela. Ser sua. Tem sabor adocicado. Aquela sensação quando o corpo parece dormente.

A admiração dos teus olhos, os cachos loiros na tua cabeça. A vontade de chorar quando compreendia que ainda não.

Talvez, nunca.

Perdi você? Se sim, foi tentando ser melhor. Perdoa, vai.

Continuo sendo sua.

E as memórias vivem em mim, como cicatrizes. A arte que você gravou pra sempre em mim. Não doeu. Dói agora, mas só de vez em quando. Faz bem. Me faz melhor. Você me fez ser e querer ser melhor.

Mas se não disse antes. Te digo agora. Adeus. Beijo teus lábios como não fiz. Você ficou pra trás: um vulto no retrovisor.

Eu quis correr de volta pra você. E quem sabe volte. Descobri no universo um choque constante de reencontros. De coincidências que me levam a acreditar.

Mas espero que desde já você entenda. E sinta. Eu te amei.

É isso.

Eu amei você. Por inteiro.

Teus cabelos loiros, os olhos azuis. A forma que você fingia tocar algum instrumento quando achava que eu não estava olhando. Como você dobrava sua roupa com uma precisão enlouquecedora.

Eu amei tua voz. A música que ecoava de você. Um rio. Um oceano. Você me banhou de mim mesma, quando me amou também.

Te amarei pra sempre

E talvez tenha mudado. Talvez ainda mude. Mas será sempre amor.

É isso que você merece e é isso que canto pra tua alma quando canto teu nome. Amor.

Que você seja feliz enquanto eu ainda preciso voar. No meu pouso talvez será teu rosto que eu verei. Talvez será tarde demais.

Então saiba e decore o som das minhas palavras: te amo. Amo o melhor amigo que você foi, a mulher que me fez ser quando me tocava, o músico que trouxe som de volta ao que antes era zunido. Continuarei te amando, de longe, mas perto. Porque eu e você somos o mesmo: universo.

Te encontro num próximo capítulo.

 

 

 

 

 

 

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