Sozinha: sobre ser mulher e querer voar

Sozinha? Como assim sozinha? E seu namorado?

Não tem? Se eu fosse teu namorado não deixaria você viajar sozinha. 

Silêncio. 

Quer parar ali pra tomar um café? 

Olhos no retrovisor. Olhos famintos. Eu me sinto pequena. É assim que eles nos fazem sentir, pequenas, frágeis. 

Não moço, você não entendeu, eu e meu namorado só brigamos. Ele está me esperando no hostel. 

Ah, sim. É bom seu namorado cuidar bem de você. Uma menina bonita dessas… 

Eu afundo no banco de trás. Tenho nojo, quero abrir a porta e sair correndo, mas estou no meio das Filipinas, em um lugar completamente remoto, à 2 horas de distância do hostel. 

Seguro o sono, estou exausta. Não durmo a mais de 24 horas. Mas não posso ousar dormir. Eu conheço aqueles olhos no retrovisor. Já fui vítima deles. Minha mão segue colada no bolso lateral da minha mochila, onde fica o canivete. 

Mas o que eu faria com um canivete? Eu e esse motorista nojento aqui, no meio do nada? Em um país em que mulheres e crianças são trocados como mercadoria? 

Meus olhos permanecem abertos por todo o resto da viagem. 

Momentos em que é impossível esquecer que viajar o mundo sozinha sendo mulher é um risco. Afinal, esse é o mundo em que um estupro é justificado pela porra de uma calcinha fio dental. 

Às vezes, me dá vontade de chorar. Em outras, é pura raiva. 

Medo. É um sentimento constante. Tão familiar que já nem o sentimos, e ele senta ali no subconsciente, na palpitação acelerada que nos leva a atravessar a rua. 

Está nas pequenas coisas. Em sentar no banco de trás, atrás do motorista, não andar com roupas provocantes, não ficar bêbada demais, não, não, não. 

Ouço uma harmonia de nãos. Quero que eles se fodam. 

Mas uma menina bonita dessas viajando sozinha? Tá levando arma? 

Dormi algumas noites com o canivete colocado no peito. Não era medo de ser roubada.

Mas vocês sabem disso. 

Quando te tiram um bem, você levanta e segue a vida. Fica puto por uns minutos, às vezes horas, mas a vida segue. Você sabe que vai acabar comprando outro iPhone lá na frente. 

Mas quando te tiram a alma, não há reposição. E é difícil levantar. Até quem nunca sofreu sabe. Por isso todas nós só sabemos temer. 

Tememos. E morremos. E ficamos pra trás porque o mundo é perigoso demais pra que meninas voem. 

A dormência do sentimento é tamanha que por vezes esquecemos. E vivemos com um sorriso no rosto, como se não houvesse preocupação. 

Aí você avista uma menina de 12 anos no colo de um estrangeiro. É um soco no estômago. É um tiro na alma. 

Olhos de homens. Saliva de homens. Eles babam como cães, e a menina ali, no centro de tudo. Ela se contorce enquanto os homens aplaudem. 

Infância perdida. Todas nós, em algum grau, perdemos também o direito de sermos criança. 

Minha menstruação desceu aos 11. A da minha irmã aos 10. Nosso corpo começa a mudar e as regras também. 

Não sei bem o que é andar livremente pela casa. Até lá eu não podia usar as roupas que queria, andar de calcinha. Os homens são animais minha filha, foi o que minha mãe disse. 

Aos homens é dada a liberdade de ser animal. A nós, resta ser presa. 

Mas saibam que leoas também caçam. E nosso tempo vai chegar. Mulheres estão mudando o mundo: vi com meus próprios olhos. 

Mulheres que ousam dizer não. O não também é nosso, sabe?  

Mulheres que vão mesmo assim, eles que se fodam. 

Mas nas sutilezas do caminho, a gente sabe que tem muita coisa a ser feita. 

Numa van cheia de gente, o motorista escolhe me deixar por último, pra ficarmos um tempinho a sós. Olhos famintos no retrovisor. Aquele sorriso de canto da boca que a gente conhece bem. 

Não moço, pára moço. Vou descer aqui mesmo. 

Não menina, te levo até seu hostel. Abro a porta à força. Desço no meio do trânsito de Kuala Lumpur. Saio correndo até me perder na multidão que anda na calçada. 

Choro quieta. Choro com raiva. 

Sempre há um fator extra.

Uma preocupação adicional. Um cuidado que já nos é tão enraizado que ousamos chamar instinto. 

Mas eu não nasci flor. Nasci loba. Você que engula suas teorias biológicas esfarrapadas. 

Voei. Apesar dos nãos que vocês ecoam. E descobri ser deusa. 

Somos todas. E somos donas de nós mesmas. Vocês que lidem com todo esse complexo de masculinidade ferida sozinhos. 

Por aqui, vou voando e inspirando a voar. Nossas palavras terão mais poder que teu desejo de nos ver produto, de nos ver propriedade. Somos deusas, entendeu? Somos leoas, somos lobas. E estamos saindo do cativeiro. 


Um adendo:

Não, esse não é um texto pra te deixar com ainda mais medo de viajar sozinha.

Mas seria leviano da minha parte não retratar o outro lado da moeda. As dificuldades que são só nossas, mulheres que viajam sozinhas.

Esse é um texto pra te inspirar. Não a ter raiva. Mas a querer revolucionar, fazer diferente. Entender que aí dentro de você existe uma guerreira. Um ser inteiro, que merece brilhar por conta própria.

Então, entenda: você tem o poder de fazer o que quiser. Ser quem quiser. Você é uma deusa. Vá conquistar o que é teu por direito.

Esse corpo é teu. Logo, as regras também são suas.

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