Viajar o mundo não me salvou: nem vai salvar você (parte 2)

Eu estava vivendo um momento de euforia que parecia muito com a felicidade. Estava animada com planos que tinha feito para morar fora, na Califórnia, e os sentimentos da depressão pareciam estar muito longe, num passado remoto.

A viagem que fiz com minha família e a posterior viagem pra Califórnia fizeram parecer como se tudo estivesse prestes a melhorar.

Eu passei a virada do ano em Las Vegas, em uma noite que até então só me parecia possível em sonhos. Conheci um garoto que foi até hoje a coisa mais próxima que eu tive de um namorado, e comecei a viver uma vida que eu acreditava ser exatamente o que eu queria.

Ia pra Vegas todo final de semana e andava com pessoas que eu admirava. Por motivos que hoje não fazem sentido pra mim.

Comecei a sentir a validação da minha existência através da fama das pessoas com quem eu me relacionava. E acreditava que isso curaria em mim o sentimento de insuficiência que me acompanhou por muito tempo.

Mas eu não podia estar mais enganada

As festas em Vegas começaram a parecer todas iguais. As mulheres que eu via se jogarem no palco para conseguir alcançar o booth pareciam um espelho, mostrando um reflexo de mim que tinha o gosto de um soco no estômago.

E eu comecei a me perguntar por que eu queria tudo aquilo, afinal? Será que eu queria ser aquelas pessoas? Me tornar aquilo que elas representavam?

Comecei a ter nojo de mim mesma, e de ter desejado tanto ser alvo de uma objetificação torpe que só fazia sentido quando eu bebia algumas taças de vinho branco ou duas doses de whisky.

Me tornei tão confusa de mim mesma que briguei com todos que conheci em San Diego. E me isolei de tudo e todos.

Ainda em território californiano, comecei a passar meus dias deitada. A força e a vontade de viver já estavam começando a serem sugadas de mim.

A dor que vinha dessa confusão de personalidade parecia amortecida quando eu enchia a minha cabeça de realities shows vazios e das comidas que pedia pelo telefone.

E em nenhum momento passou pela minha cabeça perguntar a mim mesma:

Afinal de contas, quem é você?

Assim, perceber que eu não queria aquela vida de quartos em Vegas e booths de djs famosos veio mais como um auto julgamento nocivo que como uma reflexão que pudesse trazer crescimento.

Eu voltei pro Brasil e encontrei uma realidade que eu já não reconhecia. Ainda mais perdida em mim mesma.

Voltei para uma faculdade que já tinha começado a não fazer sentido pra mim. E com a única certeza de que eu era uma estranha dentro da minha própria pele.

Tudo parecia ter um peso gigantesco. As coisas ínfimas já me tiravam a força, e eu me encontrava constantemente jogada no chão, chorando.

Eu tinha perdido, acima de tudo, um sentido. Um sentido qualquer pra continuar viva.

E os sintomas só pioraram com o tempo

De repente, eu já não encontrava motivos ou forças para sair da cama. Nem mesmo pra tomar banho.

Passava os dias embaixo da coberta, chorando, ou às vezes fraca demais para sequer chorar. Nos poucos momentos em que eu encontrava forças, focava toda a minha energia na minha monografia.

Eu parei de menstruar e comecei a ter dores insuportáveis em vários lugares do meu corpo. Meu eu exterior estava em chamas, como um reflexo de todo aquele inferno que se passava dentro de mim.

O pior, talvez, era não conseguir traduzir aquele sentimento terrível em palavras. Quando tentava explicar o que estava me fazendo sofrer, eu não conseguia. Não era nada específico. Mas eu não conseguia parar de sofrer.

Então ninguém me entendeu. Nem eu mesma me entendia. E eu comecei a me esconder de tudo e todos. Afastei absolutamente todos que me conheciam da minha vida.

Minha auto-estima estava no lixo. E todas as minhas amizades foram colocadas em xeque. Afinal, quem aquelas pessoas amavam?

Se a Ieda que eu era para os outros não era eu, a realidade era que nenhuma dessas pessoas amavam a pessoa que eu era de verdade. Elas amavam o personagem que eu tinha criado.

E sem saber quem eu era, o que eu queria, e odiando todos os personagens que eu tinha criado ao longo da minha vida, eu decidi que não queria mais viver. A única coisa que ainda me mantinha viva era a certeza que meus pais jamais se recuperariam.

Até que uma noite tudo mudou

É engraçado como essa noite é um marco muito concreto na minha vida. Eu consigo lembrar dela com uma vivacidade gigantesca.

Tinha brigado com minha mãe mais uma vez. Nossa linguagem nunca foi a mesma, mas durante as minhas crises nós vivíamos em realidades completamente distintas.

Meu pai aprendeu a ter uma sensibilidade que minha mãe não conhecia, já que minha avó paterna perdeu a vida para uma doença mental. Então era sempre mais fácil conversar com ele do que com ela.

Eu estava com muito ódio. De mim, dela, de tudo. Ódio e dor. E eu queria desesperadamente um silêncio, algo para calar as vozes que nunca se calavam dentro de mim. Eu queria um tempo de mim mesma. Nem que esse tempo significasse para sempre.

Num ímpeto que até hoje não faz sentido pra mim, eu pesquisei no google “vídeos que acalmam”. Em um blog o documentário Quem Somos Nós apareceu em primeiro lugar.

Era 1 hora da manhã. Meu rosto estava inchado de tanto chorar. Eu tinha passado o dia inteiro deitada.

Mas algo naquele documentário me tocou por dentro. E eu comecei a me perguntar, afinal de contas, por que eu me tratava daquela forma?

Se somos reflexo daquilo que falamos e pensamos de nós mesmos, talvez essa fosse a razão pela qual eu odiasse minha aparência e minha existência como um todo.

Só então percebi que talvez eu tivesse certa responsabilidade pela infelicidade que eu vivia. E, se existia alguma chance de isso ser verdade, eu precisava tentar mudar minha realidade.

Então decidi tentar, com todas as minhas forças, ser feliz

Eu não fazia ideia de por onde começar. Mas decidi deixar a vergonha de parecer fraca e tentar as coisas mais clichê que consegui pensar.

Comprei alguns incensos, um caderno novo, e decidi ir em uma aula experimental de yoga.

Serei pra sempre grata pela instrutora que me deu aquela primeira aula de yoga. Eu chorei como um bebê.

Depois de me dobrar inteira e de passar 1 hora inteira focada em me manter nas poses, eu tinha finalmente experimentado um silêncio interno que eu desesperadamente queria.

Mas muito mais que isso, eu tinha me conhecido. Enxergado, mesmo que de relance, meu eu verdadeiro. E reconhecido aquele corpo em que eu habitava, como algo especial que me tinha sido dado.

Ela falou coisas lindas, e trouxe de dentro de mim sentimentos que eu estava buscando a muito tempo lá fora. E eu comecei a entender que eu queria meu amor, meu abraço e a minha validação.

A partir daí, tudo mudou.

Eu comecei a escrever naquele caderno que eu tinha comprado todos os dias pela manhã. Troquei meu ritual matutino, que consistia em acordar, olhar o instagram, e odiar minha vida, por um novo ritual.

Acordava, acendia um incenso, colocava uma música no apartamento, fazia algumas poses de yoga, e escrevia no meu caderno. Fiz um acordo comigo mesma: naquele caderno só entrariam palavras de amor e coisas lindas.

Uma das primeiras coisas que escrevi foram as coisas que eu gostaria de contar para aquela menina fantasiada de batman no natal. Todas as coisas lindas que ela iria viver nos próximos anos, e os sonhos que ela iria realizar.

Fiz um compromisso de sempre buscar a aprovação dela. Era aquela garotinha que eu queria impressionar. Ninguém mais.

Eu concentrava todas as minhas forças em tentar ser feliz. Às vezes ia mais de uma vez no yoga, em um mesmo dia. Comecei a ler livros sobre a filosofia oriental e coloquei todo o resto em segundo plano. A faculdade, a monografia, a OAB, as festas, as amigas, meus pais, absolutamente tudo.

Só eu podia me salvar. Então eu tinha que ouvir meu sofrimento, entendê-lo, e curá-lo.

Para isso, os personagens tiveram que sumir

Decidi que, se eu queria conhecer a mim mesma de verdade, eu precisava “desaprender” tudo. Precisava calar todas as vozes dentro de mim, pra que depois só sobrasse espaço pra minha voz verdadeira.

Então, neguei as vozes dos meus pais, que me diziam que eu precisava ser inteligente, responsável, e almejar uma vida financeira melhor que eles tiveram. Neguei as vozes das minhas amigas, que me diziam que eu precisava sair, que eu era chata quando não bebia, e que me faziam almejar coisas fúteis que não me serviam. E assim por diante.

Até que só sobrou silêncio.

Eu queria ouvir a voz daquela garotinha. Queria alcançar os sonhos que tinham morrido em mim, e queria desesperadamente ser feliz.

E depois de muito tempo eu apareci

E eu era linda, inteligente, e mais do que o suficiente. Eu transbordava, e tinha dentro de mim todo o universo.

E então começou o diálogo que salvou a minha vida. Um diálogo que resultou em um final de tarde lindo nas Filipinas, em que todo o meu sofrimento fez sentido. Em que todas as noites desejando não estar viva se mostraram essenciais. Tinham sido elas que tinham me levado até ali.

Talvez, se eu não fosse assim tão intensa e fosse mais como os demais, teria passado a vida inteira vivendo uma farsa, uma vida que não era minha. Talvez, quando eu me desse conta, fosse tarde demais.

Então, a viagem maravilhosa que eu fiz foi só a coroação de um crescimento pessoal que começou lá atrás, na noite em que eu decidi lutar pela minha vida.

Ela foi a realização de um dos sonhos daquela garotinha que queria conquistar e salvar o mundo. E ela foi resultado da minha coragem de ser eu mesma e viver uma vida que refletisse tudo isso que mora aqui dentro, e que ficou apagado por muito tempo.

E por que eu vim aqui contar essa história?

Acredito que todos estamos travando uma constante batalha para sermos melhores. E eu sei que meu sofrimento não é exceção. Muitas pessoas sofrem depressão, anorexia, e outras doenças mentais e distúrbios alimentares.

E eu quero que minha história demonstre que nada que está fora de você vai poder te salvar.

Tudo o que você precisa, está aí dentro. Basta você abrir mão do ego, das máscaras, e ter a coragem de entrar dentro de si mesmo pra se conhecer.

Meu sonho é inspirar mulheres a viajarem sozinhas. Para elas entenderem que são capazes, que são livres, que são parte de um universo vasto e lindo. Mas eu sei, e quero deixar muito claro, que viajar não me salvou. E viajar não vai salvar você.

O que vai fazer a diferença é a sua decisão por ser feliz. É não renunciar quem você é para ser quem o mundo quer que você seja. Porque essa renúncia vai roubar sua essência, e você será apenas um choro que se move. Como eu fui, por um bom tempo.

Então, meu pedido e o que quero dizer com esse post é o seguinte: refaça todo dia a escolha por ser inteira. Pois inteiras descobrimos que carregamos o universo aqui dentro. Assim, ser feliz é apenas consequência, e pode ser realidade em qualquer lugar do mundo. Até mesmo aí, na sua casa.

 

Assista também o vídeo sobre o assunto no youtube

 

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5 Comentários

  1. Ieda, muito, muito, muito obrigado, de coração. Poder ler isso é maravilhoso. A paola compartilhou teu texto, e devo te dizer que as 4h dessa manhã ler isso foi a melhor decisão que tomei nos últimos dias.
    Obrigado!

  2. Tão doido como pequenas coisas (ou nem tão pequenas) podem nos ajudar.
    Eu estou passando por algo parecido, tenho 17 anos e estou sem rumo, algo que para mim é difícil pois sempre planejei de alguma forma a minha vida toda. Passei por depressão aos 16 anos e só sabia pensar em tirar a minha vida, era horrível a sensação. Aos 17 anos descobri o quão gostoso era viver, mas hoje eu não sinto a mesma coisa e isso dói. Eu pensei justamente em viajar porque pensava que isso iria me salvar, mas não vai. Eu queria ser desejada, eu queria ser amada, mas isso não importa mais que os meus sonhos interiores.
    Você me inspirou de uma forma que não sentia a séculos, e só me lembrou o que eu escutei na primeira sessão de terapia, só nós podemos nos salvar.
    Obrigada, Ieda!! Obrigada, por me ajudar tanto com esse texto ❤️❤️

    1. Nossa Beatriz, seu comentário significou muito pra mim! Que bom saber que te inspirei! E é isso mesmo, você tem tudo que precisa aí dentro de você.

      Mas se for seu sonho, não deixe de viajar! É incrível, principalmente se você já tiver iniciado um processo de autoconhecimento e de cura!

      Siga seus sonhos, deixe eles brilharem, e sua história vai ser incrível!

      beijos 🙂

    2. Nossa Beatriz, seu comentário significou muito pra mim! Que bom saber que te inspirei! E é isso mesmo, você tem tudo que precisa aí dentro de você.

      Mas se for seu sonho, não deixe de viajar! É incrível, principalmente se você já tiver iniciado um processo de autoconhecimento e de cura!

      Siga seus sonhos, deixe eles brilharem, e sua história vai ser incrível!

      beijos <3

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