Viajar o mundo não me salvou: nem vai salvar você

Viajar sozinha não vai te trazer felicidade

Eu tinha 17 anos quando comecei a desenvolver os primeiros sintomas da depressão. Com 18 fui diagnosticada com anorexia. Aos 22 eu sentia que meus melhores anos já tinham passado, e que não valia mais a pena viver. Foi aí que decidi viver de verdade. Mas viajar sozinha não me salvou, nem vai salvar você.

Essa é minha história, sem censura. E mesmo sendo difícil divulgar ela aqui, acredito que se ela ajudar pelo menos uma pessoa a sair do buraco negro da depressão, já vai ter valido a pena. Então pegue um chá, um toddynho ou um café e se prepare pra ler a história por trás da minha viagem e, principalmente:

Porque viajar o mundo sozinha não me salvou.

Minha história começa com uma criança de confiança inabalável. Minha auto-estima sempre foi muito alta. E era preciso muito pra me convencer que eu estava errada, mais ainda pra me convencer que eu não era inteligente e incrível.

Mas, crescendo, alguma coisa aconteceu no meio do caminho.

Talvez porque me tornar mulher significou muito mais que passar pela puberdade. Novos parâmetros começaram a surgir, e a beleza e a sensualidade tomaram o lugar do que antes era ocupado pela inteligência e carisma.

Sempre tive mais amigos homens. As brincadeiras “de menino” me interessavam muito mais que as barbies que me forçavam a gostar. Aos três anos pedi uma fantasia do batman de natal: eu já sabia ali que queria salvar o mundo.

Porém, essa confiança nos meus super poderes começou a diminuir pouco a pouco. Os meninos começaram a preferir andar com meninas bonitas e agir como se fossem algo que não eram. Um desses meus “amigos “escreveu uma música sobre a minha falta de seios pelas minhas costas e eu senti algo dentro de mim começar a ruir.

Então compreendi que carisma e inteligência não eram super poderes: a beleza e o dinheiro eram.

Acho que foi por aí que eu comecei a arquitetar diferentes personagens e a interpretá-los como se eles fossem eu.

Eu continuava sendo a menina inteligente na escola, mas era completamente diferente fora dela. Comecei a querer desesperadamente ser desejada, ser premiada pela minha beleza, e ter coisas que nunca foram o cerne do meu desejo. Resquícios da antiga Ieda eram cada vez mais escassos, e eu comecei a me perder dentro de mim mesma.

Por esse período comecei a querer ir pra festas, ser o centro das atenções, falar coisas obscenas e constantemente chocar as pessoas. Eu devia ter uns 14 anos.

Mas como sou atraída pelos extremos, rapidamente troquei essa obsessão por coisas mundanas pela mais insana experiência religiosa da minha vida: e eu virei crente.

E uma crente bem fundamentalista. Lia a biblía no recreio e fazia piadas que envolviam versículos. Comecei a relativizar minha própria inteligência pra corroborar argumentos rídiculos dentro da minha cabeça, porque era assim que “deus” queria. Cheguei a acreditar que eu não odiava gays, mas sim a homossexualidade, e que a África era pobre porque tinha sido amaldiçoada.

Entrou em cena mais uma personagem que tinha meu nome, mas não era eu. Me distanciei de várias amigas e fiquei uns 02 anos agindo como uma vítima de lavagem cerebral.

Porém, aos poucos, comecei a perceber a insanidade de tudo aquilo que eu defendia. Talvez porque sempre fui apaixonada pela leitura, e também porque a interpretação que eu tinha daquilo que lia na bíblia em nada tinha a ver com o que era dito no púlpito.

Foi então que parti pro meu primeiro intercâmbio, com 15 anos.

Essa primeira viagem sozinha, morando em um país diferente por um semestre, teve um efeito profundo em mim. Tanto para o bem quanto para o mal.

Eu me libertei quase que completamente das agarras da minha obsessão evangélica (creio que até hoje tenho travas mentais decorrentes daquele período), e meus sonhos de conquistar e salvar o mundo começaram a crescer novamente.

Mas voltar pra casa sem o “escudo” da igreja me levou rapidamente de volta àquelas antigas vontades. Eu mal cheguei de viagem e já fui para um carnaval open bar, desesperada para fazer parte de um mundo que parecia tão glamuroso: o mundo das festas, dos olhos esfumados e carros esporte dirigidos por garotos de cabeça vazia. Hoje já nem lembro porque isso parecia tão incrível aos meus olhos.

Essa nova persona (ou talvez a volta daquela Ieda que eu era com 13), tomou completamente conta de mim. Eu me distanciei dos meus pais e só me comportava como aquela menina inteligente e carismática na escola. Até porque eu estava obcecada em sair da minha cidade e também conhecer o mundo: esse era um sonho que nunca saía do fundo da minha cabeça. Mas pra isso eu precisava passar no vestibular primeiro.

Só que eu não queria mais ser só uma menina inteligente. Nem salvar o mundo. Eu queria ser chamada pra dentro dos camarotes das boates, queria andar com homens mais velhos e ter minha existência validada pela minha beleza e o que ela causaria nas demais pessoas.

E foi aí que eu comecei a detestar a minha aparência.

Meu grupo de amigas era composto por meninas que eu considerava lindas, e eu comecei a me enxergar como a amiga feia que elas topavam levar pros lugares.

Eu tinha acabado de chegar do intercâmbio, onde tinha engordado 6kgs. Além disso, eu não tinha seios, nem tinha o rosto mais bonito: meus dentes eram separados e eu odiava a cicatriz de catapora que está até hoje bem no meio da minha testa.

Então um dia meu professor de matemática inventou um novo apelido pra mim: pochete, por causa da barriguinha que surgia quando eu me sentava. Os meninos começaram a me chamar assim também, e eu era constantemente alvo de piadas.

Mesmo assim, eles me diziam que era porque éramos amigos e porque eu não era gorda que eles podiam me chamar assim. Além disso, eu vivia me metendo em discussões nas aulas de atualidades porque tinha o pensamento frontalmente oposto ao dos demais alunos: além de pochete, me chamavam de xiita do PT, por defender direitos humanos básicos e os direitos indígenas.

Tudo isso começou a me deixar bem louca. Estudava muito pra passar no vestibular, mas estava preocupada com as festas que eu ia nos finais de semana, com a minha aparência, e com a desesperadora vontade de ser aceita.

Para coroar esse período, minha melhor amiga foi fazer um intercâmbio de 1 ano na Europa. E eu me senti mais sozinha do que nunca.

Como resultado desse desespero comecei a contar calorias

Eu sabia o tipo de mulher que eu queria ser: linda, desejada e poderosa. E eu sabia que isso só seria possível se eu me encaixasse no padrão estabelecido pelo mundo. Eu precisava emagrecer, muito.

Fiquei obcecada com o tumblr, e passava todos os meus minutos livres olhando meninas magras e desejando ser como elas. Eu estava tão envergonhada da minha aparência que até parei de sair. O stress me levou a ter surtos de espinhas no rosto e eu não podia me sentir pior.

Então passava meus dias estudando, contando as calorias, e imaginando um futuro em que eu seria feliz.

Emagreci 9 kgs em 5 meses. Na viagem de final de ano da família eu estava pesando exatos 46kgs. Eu tinha 17 anos.

Essa viagem foi muito simbólica. Primeiro porque foi a primeira vez em que me senti confortável em um biquíni. Além disso, conheci garotos todas as noites em que saímos, e me senti verdadeiramente bonita pela primeira vez em muito tempo.

Paradoxalmente, a consequência não foi um aumento na minha auto-estima, mas o aprofundamento da minha obsessão. Eu tinha provado o gosto de ser magra e bonita. Agora eu precisava de mais.

Para não engordar e continuar emagrecendo comecei a pular refeições

Em alguns dias era o café-da-manhã e o almoço. Em outros era só o café. Eu nem percebi que fazia isso de propósito, e imaginava estar apenas compensando as calorias que eu comia durante as refeições que eu ainda fazia.

Voltando pra casa, eu recebi o resultado de quase todos os vestibulares e eu podia basicamente escolher para onde ir. Minha maior vontade era estudar fora, mas sabendo que isso custaria muito caro, minha segunda melhor opção era ir pra Florianópolis.

Eu até hoje não me lembro do porquê escolhi Direito. Ainda mais agora que sei o tanto que essa profissão não me serve.

Meu mundo, que já estava bastante tumultuado, sofreu um outro baque: minha mãe me proibiu de morar sozinha em Florianópolis, e me deu um ultimato. Ou eu me mudava para o Rio de Janeiro com ela, ou eu continuava em Campo Grande com meu pai.

Isso acabou comigo. Eu estudei muito, e já tinha imaginado meu futuro morando sozinha, sendo dona de mim mesma. E agora todo o esforço parecia em vão.

Achei na época que não tinha saída, ou talvez eu tivesse muito medo de enfrentar minha mãe. Só que, como resultado, me mudei para o Rio de Janeiro e comecei a estudar na UFRJ.

Eu amei os novos amigos que eu fiz. Mas eu ainda ressentia a cidade, a faculdade, minha mãe, meu padrasto, e principalmente a mim mesma.

Foi aí que experimentei pela primeira vez as profundezas obscuras da depressão.

Eu costumo contar essa história elencando vários motivos para a minha depressão. A falta de controle na minha vida, as condições emocionalmente precárias e exaustivas da minha vida no Rio, as 4 horas e meia que eu levava todo dia pra chegar na faculdade e descobrir que os professores tinham faltado…

Mas a verdade é que nenhuma dessas causas é de fato a razão pela qual eu desenvolvi a depressão.

E, de verdade, eu até hoje não sei se existe uma razão específica. E acredito que tenha sido o resultado de um sentimento de incompletude e descontentamento que começou lá atrás, quando eu descobri não ser mais suficiente para meus amigos homens. Ou talvez até antes disso.

Pode ser que tenha sido uma dificuldade de processar tudo isso. De ser muito intensa. De me jogar de cabeça em tudo que eu fazia.

Ou talvez havia algo de “errado” comigo, quimica e biologicamente.

Mas, a par das causas, o fato é que eu comecei a desejar não acordar pela manhã. Eu odiava tudo e todos, mas principalmente eu odiava ser eu. Odiava a pele em que eu vivia. E odiava odiar tudo isso.

A culpa por não ser feliz também me consumia. E eu me sentia um verdadeiro lixo.

Eu acordava às 6 da manhã, malhava por 2 horas e consumia 600 calorias diárias. Minha vida se resumia a sobreviver, embora eu estivesse sempre sorrindo.

Passava horas na frente da tv assistindo programas de cozinha, saciando minha fome com os olhos. Definhei ainda mais e cheguei aos 41 kgs. Mais do que meu corpo, o que estava sumindo de verdade era eu mesma e minha vontade de viver.

No meio desse ano fui visitar meu pai na minha cidade natal e ele ficou desesperado ao ver meu estado. Talvez minha mãe tenha percebido, mas não sabia como me ajudar. Engraçado que ela não quis que eu mudasse pra Floripa exatamente porque tinha medo de eu desenvolver uma depressão.

Meu pai ficou tão desesperado que praticamente me obrigou a mudar. Comecei a terapia, acompanhamento com nutricionista e com uma ginecologista (eu não menstruava a quase um ano). Aos poucos comecei a melhorar, mudei de universidade achando que isso ajudaria, e ia na pscióloga semanalmente.

Comer ainda parecia um sacrilégio, e eu ainda estava deprimida por dentro, mas comecei a engordar um pouco e isso aliviou meus pais.

No final do ano minha mãe resolveu voltar pra minha cidade natal, e eu fiquei sozinha no Rio de Janeiro. Finalmente eu tinha a vida que eu queria: morar sozinha e ser livre. Agora, com 18 anos.

Logo no começo do ano meu avô faleceu. Eu pouco me lembro do velório, e tudo parece meio nublado dentro da minha cabeça. Acho que eu ainda não sabia como lidar direito com a dor. Talvez esse tenha sido o problema desde o começo.

Mas, voltando pro Rio, recebi uma ligação me chamando para meu primeiro estágio. Pela primeira vez eu tinha um trabalho, meu próprio apartamento e as possibilidades começaram a ressurgir no horizonte.

Só que nunca tratei de verdade as causas e as origens da minha depressão. Eu só comecei a me ocupar mais. A sair mais. Comecei a ter relacionamentos (ou coisas que eram bem semelhantes a relacionamentos). E essas questões foram sendo colocadas debaixo do tapete.

Mas a depressão ainda estava ali, me importunando.

Eu ainda tinha ataques de choro e de desespero. A amiga que foi morar comigo presenciou um deles logo na sua primeira semana. Eu chorava muito, a dor ecoava da minha voz. Eu me sentia um lixo. E me sentia mais lixo ainda por me sentir um lixo tendo tudo que eu tinha.

As personagens de mim mesma voltaram com força total. E eu estava constantemente interpretando alguma delas.

Eu voltei a querer aquelas estupidezes de antigamente. Precisava estar nas melhores festas, andar com as pessoas mais influentes, sentir o gosto de ser desejada, de ter meus pedidos atendidos por ter o rosto e o corpo bonitos. Essa sensação ridícula de poder que eu sentia quando era usada pelos outros.

No trabalho eu era um personagem, na faculdade outro, para meus pais outro, para os homens com quem eu me relacionava outro. Tinha medo de mostrar emoção, de parecer fraca, mas era exatamente isso que eu era.

Eu não conseguia acreditar que alguém ia gostar de verdade de estar comigo. E imaginava cenários diferentes em que eu era constantemente ridicularizada por aqueles que andavam e se relacionavam comigo. Aquela sensação de patinho feio voltou com força, minhas amigas eram todas modelos e eu era só eu.

Como resultado, meus relacionamentos foram de mal a pior. Sofri muito e sei que também causei sofrimento. Me afastei de amigas e me aproximei de pessoas que não podiam ser assim classificadas. Era um mundo vazio e supérfluo, mas eu estava cada vez mais obcecada por ele.

Até que um dia, nada disso fez mais sentido. E eu caí nas profundezes da depressão novamente. 

Continue lendo em:

Viajar o mundo não me salvou: nem vai salvar você (parte 2)

e assista o vídeo sobre o assunto.

 

 

 

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14 Comentários

  1. Me identifiquei bastante com sua história, desde criança tenho problemas relacionado a minha imagem, era magra demais, e tenho outro problema de imagem que me afeta tanto que não consigo nem comentar aqui, e isso me afetou a vida inteira, sou triste, vivo “personagem” mostrando ser feliz. Deixei de sair pra muito lugares por medo do julgamento das pessoas da minha cidade, fiz uma viagem num tempo das fotos de formatura, que não consegui tirar por n gostar da minha imagem, e aquilo foi libertador, não conhecia ngm, as pessoas n me julgavam e já fiz outras viagens sozinhas pq parece que me livro desse peso do julgamento das pessoas, ali só são pessoas que nem conheço.

    1. Oi rê, primeiro que bom saber que você se identificou, e fico triste de saber que você passa/passou por tudo isso…

      Eu entendo esse sentimento de libertação durante a viagem, quando estamos em um ambiente sem conhecidos e parece que nos livramos dos julgamentos dos outros e dos nossos próprios. Mas ei, tente ser assim o tempo todo. Você pode ter certeza que a imagem linda que você é quando se sente livre pra ser quem você quiser merece brilhar ininterrupta! E se as pessoas que te cercam te fazem se sentir aprisionada e sentindo que sua essência não é boa o suficiente, talvez esteja na hora de buscar um novo círculo de amizades, de pessoas que combinem com quem você é de verdade.

      Pode ter certeza que tudo isso que tá aí dentro de você é lindo, merecedor e esplêndido. Permita-se ser.

      Um beijo.

  2. Muito importante você abrir o coração e escrever esse post, porque vendem demais a ideia de que viajar cura todos os problemas e as pessoas tem a mania de tratar depressão como uma coisa simples, e não como uma doença complexa como ela realmente é. Eu também já estive no fundo do poço e sei que uma viagem não cura depressão, do mesmo jeito que não cura uma cirrose ou um cancer. Precisamos falar sobre isso urgentemente. Parabéns pela coragem!

    1. Obrigada! Sim, acho que quase tudo na vida é vendido como cura absoluta da infelicidade… carreira, dinheiro, família… mas nada disso traz a felicidade, até porque a felicidade não pode ser “trazida”, só “encontrada” dentro da gente 🙂

  3. Ieda, que história difícil.
    Quando a gente se perde dentro da gente, não sabe mais quem somos, muitas coisas passam a não fazer mais sentido.
    Se vc está contando sua história publicamente, quer dizer que superou tudo isso. Nada fácil superar, nada fácil compartilhar assim.
    Parabéns!

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